A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar.
(Fernando Pessoa, Mensagem)

Um homem demora muito tempo a fazer-se. Não somos como aqueles passaritos que se soltam na imensidão dos céus pouco tempo depois de terem visto a luz.

Trazemos em nós uma semente que demora a germinar, que gasta nessa tarefa muitos anos de silêncio e agitação, que se desenvolve, quase sem darmos conta, enquanto andamos entretidos com as nossas actividades.

É assim, decerto, porque está destinada a dar um fruto muito maior que o do pássaro.

Temos, sem dúvida, uma alma: raciocinamos, temos sede de conhecer, somos capazes de amar e de escolher.

Um animal come necessariamente, se tiver fome e o alimento estiver ao seu alcance. Um homem, nas mesmas circunstâncias, pode não o fazer. Porque, por exemplo, resolveu fazer dieta. Ou porque escolheu dar o seu alimento a outro que tinha mais fome do que ele.

Tem a possibilidade de viver de acordo com outros critérios.

Há muitos séculos que chamamos alma a esse não-sei-quê que faz parte de nós e nos permite viver num plano superior ao das coisas simplesmente materiais.

É como se possuíssemos uma espécie de asas.

Sabemos apreciar um sofá confortável, um sono reparador, um bom bife com batatas fritas, um banho no mar quando está calor. Mas precisamos de mais do que isso. E damos por nós a perguntar “porquê?”, ou a discutir ideias. E descobrimos que há qualquer coisa – não feita de células ou moléculas – que nos comove e nos atrai numa paisagem, num gesto de heroísmo, num poema, na música.

Há uma beleza e um bem que não são feitos de nada que se possa tocar. Que não estão nas coisas, embora as coisas nos levem a eles. E percebemos que estão ao nosso alcance. Que existem para nós e nós para eles.

Aquilo que é apenas material – acabamos sempre por o descobrir – sabe a pouco e não nos enche as medidas. Mas leva tempo a chegar aí.

Leva tempo até percebermos, por exemplo, que existe uma paz que não é a paz das coisas, mas sim uma harmonia interior que resulta de um comportamento correcto. E que é esse o género de paz que nos interessa; que não nos basta aquela paz que é feita somente de ausência de vento ou de guerra.

E também demora até que compreendamos bem a dor. Até entendermos que as dores da alma – a solidão, a injustiça, o remorso… – são bem piores do que uma dor de dentes ou do que um braço partido.

Um homem leva muito tempo a fazer-se porque é preciso que se prepare para se movimentar à vontade no campo do espírito. Tem de crescer não apenas corporalmente. Deve atingir uma envergadura que ultrapassa em muito o âmbito das coisas materiais. Deve fazer-se… homem.

É um caminho já de si longo. Ainda por cima, cometemos com frequência a burrice de termos medo de ganhar asas. De largar um pouco esses outros bens – mais pequenos, mais baixos, mais… animais. É olhar e ver como muitas vezes nos afadigamos correndo atrás da posse de bens materiais e dos prazeres que não são senão para o corpo e de que também gostamos.

Ter, gozar, comprar, comprar… Ter, ter, ter.

Mas sucede que o ter e o comprar e o gozar – usados de um modo exagerado, como fazemos – nos atrasam. Perdemos tempo.

Quem vive obcecado com a posse de prazeres e bens materiais não tem acesso aos prazeres da alma. Passa ao lado do bem e da beleza e do amor. Porque escolheu um nível para a sua vida – o mais cómodo – e escolher uma coisa é sacrificar as outras. Não é possível alcançar o topo da montanha e, simultaneamente, permanecer deitado à sombra lá em baixo.

Portanto, apressemo-nos. Pois, como escreveu o poeta, ter é tardar…