O centro do mundo
Quando vamos pela estrada, conduzindo um automóvel, e temos pressa, parece-nos incrível que à nossa frente, entupindo a estrada, sigam outros automobilistas, conduzindo com o mais idiota dos vagares. Que ideia essa de vir para a estrada em ar de passeio, sem o mínimo respeito por aqueles que têm coisas que fazer!…
No entanto, há ocasiões em que somos nós quem não tem pressa. Resolvemos saborear uma paisagem, ou uma conversa, ou uma música. Nessas alturas, irritamo-nos se o parceiro que vai atrás de nós nos buzina, e apontamos o dedo a esse que faz uma ultrapassagem arriscada ou passa um semáforo já meio vermelho.
Somos pouco razoáveis. Falta-nos coerência e nem reparamos nisso.
E a verdade é que isso que nos sucede na estrada se verifica também em muitos outros âmbitos da nossa vida.
Habituámo-nos a ver todas as coisas a partir do ponto de vista do nosso interesse: são boas se nos convêm e más se nos contrariam; são boas se somos nós a fazê-las e más se outra pessoa as realiza e isso nos prejudica de algum modo. Temos uma justificação para todos os nossos actos e, simultaneamente, somos o mais rígido juiz para os outros quando fazem precisamente as mesmas coisas que nós fizemos ou fazemos.
Consideramos que um determinado acto é obviamente mau e indesculpável… mas… no nosso caso, nas nossas particulares circunstâncias, tendo em conta o nosso especial feitio…
Estamos convencidos de que o divórcio, por exemplo, é uma coisa péssima, pois arruína a família – que é a célula da sociedade – e arrasta crianças para a infelicidade. Mas se algum dia acharmos que nos convém divorciarmo-nos, não hesitaremos em fazê-lo.
Temos uma moral muito nossa que, no fundo, resulta… de nos considerarmos o centro do mundo, de pretendermos ser o único legislador. É claro que não o dizemos e que não nos atrevemos a pensá-lo, mas na prática é desse modo que funcionamos.
Achamos muito bem todo o género de leis – como utilíssimas normas reguladoras da vida dos homens – desde que elas não se apliquem obrigatoriamente a nós. É por isso que – no nosso desenfreado caminho, centrado no nosso umbigo – acontecem com frequência situações em que nos sentimos estorvados: pelos pais, pelo nosso chefe, pela polícia… pela nossa consciência.
Esta nossa forma de estar no mundo tem, pelo menos, duas consequências desgraçadas.
A primeira delas é que a nossa vida se transforma numa mentira. Porque ao fabricarmos em cada situação a nossa própria verdade – que frequentemente varia consoante os nossos interesses – o que fazemos é, evidentemente, fabricar mentiras. Verdade é aquilo que está de acordo com a realidade. E a realidade é só uma. Não está sujeita a ser alterada para satisfazer conveniências dos indivíduos. Devemos adaptar-nos a ela, pois o contrário não é possível.
A segunda consequência é o isolamento. Ao separarmo-nos da realidade – por termos renunciado à verdade – passamos a viver num mundo só nosso, interior, estranho, doentio. Onde as pessoas e as coisas não são o que são, mas aquilo que queremos que elas sejam. Somente desse falso mundo podemos ser o centro; no outro as coisas estão organizadas de outra forma… E é por isso que tantas vezes chocamos com ele.
