Confesso

Quando o vento crescia e arrancava
ramos de árvore eu saí
Saí para o vendaval quando as circunstâncias
aconselhavam o calor de uma lareira

Escalei rochas de onde se podia cair de muito alto
Já não recordo quantas vezes me perdi em noites de montanha
Sim conheci o medo mas também
a esperança e a alegria

Aproximei-me de quem estava armado
e tinha olhos frios e sentei-me a seu lado
e aprendi o seu nome
Confesso que os meus amigos
não eram gente recomendável

A certa altura morreria por eles
e eles por mim mas com que palavras
apresentar-vos isto como algo valioso

Construí uma cabana na aldeia dos leprosos
e habitei entre eles e foram o meu povo
Frágil a minha vida como as outras
mas um anjo a teve segura estranhamente

Abracei aqueles cujo abraço me podia prender
Toquei o ponto no qual o amor bom
podia sujar-se e ser aquilo que eu não queria

Tantas vezes oscilei em cima de um arame
Tantas vezes senti uma fronteira
debaixo dos meus pés
Ninguém a quem pedir conselho

Vivi na beira de um abismo
Confesso que não cumpri as regras
Não devo ter cumprido as regras
São belas as flores de perto do abismo
mais fortes as rochas e tudo ali é nu e verdadeiro

Aquele que era mau teve-me nas mãos
Poderia ter-me cortado às postas trucidar-me
mas apertou-me a mão e fez-se bom

Confesso que confiei

Há mil coisas de que me podem acusar
com razão e sei que não mereço
usar gravata