Esta palavra ainda estrangeira está escrita numa pequena tecla situada num dos cantos do computador que estou a utilizar neste momento. Premindo essa tecla consigo apagar qualquer coisa  anteriormente escrita e começar de novo. Posso eliminar frases, páginas inteiras, o que quiser.

É fantástico. Como somos humanos e erramos, começar de novo é uma possibilidade maravilhosa. É estupendo poder continuar em frente como se não tivesse existido o erro. Podemos fazer uma coisa, ver o resultado que dá e depois, se não gostarmos, fazer outra diferente.

A tecla do computador foi chamada para aqui porque li que umas sondagens indicavam que a doutrina da reencarnação tem actualmente uma grande popularidade: 40% dos europeus; 33% na Argentina; 70% no Brasil… As sondagens, como se sabe, não valem grande coisa, mas não me admiraria se os números reais fossem grandes, pois esta doutrina adapta-se muito bem aos tempos que vivemos.

Segundo ela, quando uma pessoa morre a sua alma separa-se momentaneamente do corpo, voltando algum tempo depois a habitar outro corpo para uma nova vida na terra. A alma precisa de reencarnar porque tem de pagar pelos pecados cometidos na vida anterior, ou receber o prémio correspondente, se tiver tido um comportamento honesto. Vai assim evoluindo até alcançar, em sucessivas reencarnações, a perfeição. Momento a partir do qual se transforma num espírito puro, já não precisa de mais reencarnações e mergulha para sempre na eternidade.

É, também, fantástico: oferece sempre uma nova oportunidade, como a tecla do computador. Se a nossa vida actual for cinzenta, triste, dolorosa, sempre podemos pensar que há mais vidas a viver.

Além disso, tem graça. É divertido saber o que fomos em vidas anteriores. Uma conhecida actriz dizia numa revista: “Já descobri que esta é a minha terceira vida. Primeiro, fui uma princesa egípcia. Depois, uma matrona do Império Romano. E agora reencarnei em actriz”.

E dá explicações novas para factos misteriosos. Por exemplo, a forma desigual como o sofrimento está distribuído. Isto torna-se fácil de entender se pensarmos que essas pessoas estão a pagar por pecados ou a receber o prémio por bons comportamentos. E a simpatia, ou a antipatia, entre as pessoas explica-se pelo facto de já se terem cruzado em vidas anteriores… O que tem muito mais graça do que as explicações dadas pela psicologia científica.

As mesmas sondagens indicavam que 34% dos católicos e 29% dos protestantes acreditavam na reencarnação. E é curioso, pois essas religiões crêem em que só se morre uma vez… Mas nós já não nos importamos demasiado com as contradições. Nem com religião.

Por que é que a reencarnação é assim tão sedutora? Penso que é, em parte – mas não sei o que há dentro de cada pessoa – porque tem o poder de nos tornar deliciosamente irresponsáveis. Escusamos de levar muito a sério esta nossa vida, visto que vamos ter outras a seguir. Não é necessário ponderarmos muito os nossos actos e as suas consequências. Há muito tempo para virmos a ser honestos e verdadeiros e valentes; escusa de ser já hoje. Há muito tempo para tomarmos as decisões fundamentais que a vida exige de nós. Podemos ser, por enquanto, como aqueles estudantes que vão deixando correr o tempo e só começam a estudar no terceiro período. Com a vantagem de que o terceiro período será apenas quando nos apetecer…

É claro que um monge oriental não vê as coisas assim; nós temos a nossa própria versão ocidental, frívola, da reencarnação… No nosso caso, serve de sedativo para a consciência. É uma “religião” suavezinha, que nos dá o paraíso quase gratuitamente. Que, no fundo, nos permite viver aqui enquanto quisermos. Que se adapta aos nossos gostos, em vez de  nos exigir mudanças radicais de comportamento ou outras coisas difíceis. Com ela podemos realizar aquilo que antes era impossível: sermos seres “religiosos” e, simultaneamente,  continuarmos a viver como se não tivéssemos alma. Graças a ela compatibilizamos a preguiça, que nos leva a estarmos parados, com a sensação doce de irmos a caminho.

Mas… o milagre de existirmos não se repete. Sabemos todos, no fundo de nós mesmos, embora gostemos de nos iludir, que só temos esta vida para nos realizarmos, estes anos para cumprirmos os nossos sonhos, estes dias para sermos felizes e tornarmos felizes aqueles que amamos.