Os alunos esperam sempre com expectativa as palavras – ou as notas – com que os professores se referem ao seu trabalho. Mas também os professores têm frequentemente curiosidade acerca dos comentários que os alunos fazem acerca deles.

São muito variadas – e frequentemente correctas – as afirmações que os alunos podem fazer sobre os seus professores, mas, para avaliarmos em profundidade aquilo que um professor significa realmente para os seus alunos, teremos de ir um pouco além das afirmações que estes possam fazer.

Porque, muitas vezes, aquilo que um aluno diz sobre os professores está limitado pela experiência mais recente que teve, agradável ou desagradável; ou pela superficialidade; ou pela pressa.

Há duas coisas que quero agora dizer acerca deste assunto.

Em primeiro lugar, o professor actua sobre aquela fragilidade da natureza humana pela qual tendemos todos a instalarmo-nos num estojo de facilidade e conforto.

A verdade é que há em nós capacidades em potência que nunca chegariam a ser actualizadas se as circunstâncias ou outras pessoas não nos “forçassem” a isso…

Podemos, cada um de nós, atingir uma envergadura, uma dimensão, provavelmente muito superior àquela que consideramos razoável. Mas fugimos disso, porque nos dá trabalho alcançá-la…

Temos dons, cada um os seus, que deviam ser desenvolvidos até se tornarem realmente úteis. Devíamos treinar a vontade e os músculos, porque ambos necessitam de exercício para se tornarem mais fortes. Temos tendência para mentir nas dificuldades, mas um homem íntegro não mente, e todos devíamos ser íntegros, chegando a esse ponto por meio de uma sucessão de esforços. Podíamos fazer as coisas mais bem feitas, ser mais exigentes connosco mesmos.

Somos, em certo aspecto, como um elástico, porque podemos dar mais de nós. Mas como um elástico que depois de ser esticado mantivesse as novas dimensões, entretanto adquiridas. Porque os nossos esforços dão em nós resultados que permanecem.

Esta espécie de atrofiamento, ou de tendência para o atrofiamento, que verificamos em nós, adultos, é um problema bastante mais complicado nas crianças e nos jovens, porque nessas idades o tom de vida cria uma base definitivamente marcante para o resto da existência.

Lembro-me de que antigamente os automóveis precisavam de fazer uma rodagem muito cuidada, o que quer dizer que precisavam de ser “esticados”, de circular durante algum tempo a velocidades razoavelmente altas, porque, se nesse período os conduzíssemos apenas a baixas velocidades, não seriam mais tarde capazes de circular mais depressa.

Se considerarmos que uma característica importante de um bom amigo é que ele nos ajuda a chegarmos aonde devemos chegar, mesmo que não nos apeteça, então os bons professores são grandes amigos dos seus alunos. Eles puxam o elástico sempre um pouco mais, sem magoar muito, com delicadeza.

São amigos com uma amizade tão pura, tão desinteressada, que não se importam com que ela só seja reconhecida muito mais tarde, ou mesmo nunca.

No passado do poeta que escreveu versos sublimes, há quase de certeza um professor que o obrigou a exercitar-se na sintaxe, que o forçou a corrigir vezes sem conta frases mal escritas, que ralhou com ele quando se desleixava. Na juventude daquele que escreveu uma bela sinfonia houve muito possivelmente uma professora, talvez já velhota, que lhe explicou cem vezes, pacientemente, qual era a forma correcta de colocar as mãos quando se sentava ao piano.

O poeta e o músico tiveram o seu nome escrito na História, mas ninguém recorda quem foram os seus mestres. No entanto, há uma beleza imensa nesse passar despercebido, nesse ter rasgado as mãos ao trabalhar nos escuros alicerces de um mundo melhor. Uma beleza que só é apreciada pelas grandes sensibilidades, como são as daquelas pessoas que se dedicaram de corpo e alma à educação. Uma boa parte da humanidade prefere aquilo que dá nas vista ou produz frutos imediatos…

Um segundo ponto é este: aquilo que os professores vêm a ser para os alunos depende fundamentalmente daquilo que os alunos são para os professores: do modo como estes encaram os alunos.

“Eu gosto muito dos professores porque eles gostam muito de nós”, dizia uma aluna do 2º Ano. Nessas idades existe ainda a simplicidade profunda que permite dizer numa frase coisas muito mais certeiras do ponto de vista educativo do que boa parte dos documentos produzidos por sucessivos ministérios da educação.

Mas, então, “há professores e professores”, como dizia aquele aluno do Secundário? Porque nem todos olham para os jovens da mesma forma…

É verdade, mas todos queremos que sejam cada vez mais os professores que olham para os alunos com aquela forma de olhar – ver um aluno de cada vez – própria de quem olha… para uma pessoa.

Os nossos alunos são pessoas muito especiais para nós. São de alguma maneira os nossos irmãos pequenos, porque são jovens e nos estão confiados. Estão a passar por onde nós já passámos, e muitas vezes fazem-nos sorrir, e recordar, e recordar sorrindo.

Têm os sonhos que nós já tivemos e acreditam naquilo em que nós gostaríamos de ainda acreditar. Transmitem-nos vida – às vezes em demasia… – e estamos sempre a aprender com eles.

São para nós uma ocasião de sermos jardineiros e poetas. Dão-nos muito.

Gostamos deles. E, por isso, aconselhamos, ralhamos, castigamos quando isso se torna conveniente. E por isso procuramos evitar que se metam em situações que sabemos serem prejudiciais. E por isso esticamos o elástico.

Quando é possível, fazemos tudo isto sem deixarmos de sorrir… E assim nem eles se importam muito com o conselho, com a crítica, com o castigo.