<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?> <rss version="2.0" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:wfw="http://wellformedweb.org/CommentAPI/" xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" xmlns:sy="http://purl.org/rss/1.0/modules/syndication/" xmlns:slash="http://purl.org/rss/1.0/modules/slash/" ><channel><title>Cidadela</title> <atom:link href="http://cidadela.net/feed/" rel="self" type="application/rss+xml" /><link>http://cidadela.net</link> <description>Trabalhos de Paulo Geraldo</description> <lastBuildDate>Mon, 09 Jan 2012 22:35:40 +0000</lastBuildDate> <language>en</language> <sy:updatePeriod>hourly</sy:updatePeriod> <sy:updateFrequency>1</sy:updateFrequency> <generator>http://wordpress.org/?v=3.3.2</generator><meta xmlns="http://www.w3.org/1999/xhtml" name="robots" content="noindex,follow" /> <item><title>O jogo das pedrinhas</title><link>http://cidadela.net/jogo-das-pedrinhas/</link> <comments>http://cidadela.net/jogo-das-pedrinhas/#comments</comments> <pubDate>Thu, 05 Jan 2012 11:46:47 +0000</pubDate> <dc:creator>Paulo</dc:creator> <category><![CDATA[Textos em prosa de Paulo Geraldo]]></category> <category><![CDATA[Educação]]></category> <category><![CDATA[filhos]]></category> <category><![CDATA[pais]]></category> <category><![CDATA[valores]]></category> <category><![CDATA[virtudes]]></category><guid isPermaLink="false">http://localhost/wordpress/?p=121</guid> <description><![CDATA[O senhor partiu do princípio de que a filha podia estar a mentir. Não estava... mas abriu as mãos.Enquanto tomava o meu café assisti ao instante exacto em que aquela menina aprendeu que não era merecedora de confiança, que não acreditavam nela, que a sua palavra não tinha valor. Que esperavam dela que fosse capaz de enganar os outros para alcançar os seus objectivos.Aos três anos. Num jogo. Com o pai.]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Havia pouca gente no estabelecimento quando entrei. Enquanto tomava o meu café pude assistir com sossego ao acontecimento, cuja importância fui compreendendo. Era o jogo das pedrinhas. A menina tinha talvez três anos e estava sentada sobre o balcão. Um senhor, que parecia ser o pai, estava diante dela e tinha de adivinhar em qual das mãos tinha a menina colocado uma pedra pequenina. Ela, com os braços atrás das costas, sem que o pai pudesse ver, deixara a pedra numa das mãos, e agora estendia-as ambas, fechadas, para o pai adivinhasse.</p><p>O pai escolheu uma das mãos, mas não acertou. Foi isso o que a criança lhe disse, começando imediatamente a preparar-se para repetir o jogo. Mas o pai pediu-lhe que abrisse as duas mãos com as palmas para cima. Era preciso que ela apresentasse a prova de que o pai não tinha acertado&#8230;</p><p>O senhor partiu do princípio de que a filha podia estar a mentir. Não estava&#8230; mas abriu as mãos.</p><p>Enquanto tomava o meu café assisti ao instante exacto em que aquela menina aprendeu que não era merecedora de confiança, que não acreditavam nela, que a sua palavra não tinha valor. Que esperavam dela que fosse capaz de enganar os outros para alcançar os seus objectivos.</p><p>Aos três anos. Num jogo. Com o pai.</p><p>Muito se poderia dizer acerca das mentiras das crianças ao longo do seu desenvolvimento &#8211; muitas vezes relacionadas com a aprendizagem de o que é a realidade e o que é a imaginação. Mas este caso não tem relação com isso.</p><p>Enquanto tomava o meu café pareceu-me estar a assistir a um exemplo concreto de como se colocam minas nos alicerces do mundo. &#8220;Estamos todos num mesmo barco, em mar tempestuoso, e devemos uns aos outros uma terrível lealdade&#8221;, escreveu Chesterton. Essa lealdade é necessária nos fundamentos da convivência entre os homens.</p><p>E lembrei-me de como os antigos tinham tão elevada estima pela sua honra que a defendiam com unhas e dentes, de como consideravam uma desgraça a sua perda.</p><p>A honra de uma pessoa é o reconhecimento de que essa pessoa é íntegra e digna de confiança. Não como consequência de uma campanha artificial, como agora se consegue através da publicidade e da propaganda, mas como resultado de um longo e constante esforço por ter um comportamento correcto.</p><p>O mundo é uma selva, e isso conduziu-nos à desconfiança. Desconfiamos por princípio, por hábito, por medo, por insegurança, por prudência. Desconfiamos sempre. Se alguma vez confiámos, passámos muito possivelmente pela amargura de sermos enganados. Desconfiamos porque a nossa experiência de vida nos levou a desconfiar. Aprendemos com os nossos erros e fazemos muito bem.</p><p>Fazemos muito bem&#8230; desde que não queiramos fazer nada para mudar o mundo, desde que estejamos contentes com a selva que nos rodeia, desde que não nos importemos com ferir as pessoas que estão ao nosso lado. Porque é preciso que tomemos consciência de que ofendemos uma pessoa quando partimos do princípio de que ela não é digna de confiança. E de que essa ofensa é sentida muito mais vivamente se essa pessoa for jovem. Não há melhor forma de fazer de uma criança um mentiroso do que desconfiar dela. E confiar nela é necessário para que venha a ser um adulto verdadeiro.</p><p>Nas crianças devemos confiar sempre. Ao lidar com elas estamos a construir o mundo. Devem crescer com a noção de que se espera delas a verdade, a nobreza, a dignidade. Devem saber que é isso o normal, embora exija esforço.</p><p>Querem ser boas, querem aprender, querem ser gente a sério. São o que de melhor há no mundo. Têm os olhos limpos, o coração limpo e as mãos limpas. Acreditemos nelas. Se alguma vez nos enganarem, não há o risco de que entendam esse comportamento como normal, porque se hão-de lembrar de que confiamos nelas. Não pensarão: &#8220;toda a gente faz isto&#8221;. Sentir-se-ão mal. Terão pena. Voltarão à verdade.</p><p>Mesmo que tenhamos sérias dúvidas, será melhor deixarmo-nos enganar do que lançar sobre elas a suspeição, que magoa e marca e arruína. Pode perder-se qualquer coisa, mas é muito mais &#8211; e está noutro plano &#8211; aquilo que se ganha.</p><div id="crp_related"><h3>Textos relacionados:</h3><ul><li><a href="http://cidadela.net/ele/" rel="bookmark" class="crp_title">Ele</a><span class="crp_excerpt"> Tinha crescido cingindo-se ao seu tamanho, ciente das suas limitações, ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/aqueles-olhos-verdes/" rel="bookmark" class="crp_title">Aqueles olhos verdes</a><span class="crp_excerpt"> Uma escola é um mundo de gente. 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É que te estão a oferecer um degrau que te deixará incomparavelmente mais acima no caminho. Deves ver nisso o sinal de que – por qualquer razão – é tempo de andares depressa. Sobretudo, não te queixes. Há assim metamorfoses que parecem aniquilar, mas não passam de formas de fazer surgir a borboleta. Não te queixes, porque receberás umas asas e cores novas.]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Não deves recusar o esforço, porque ele é um caminho.</p><p>Num lugar que terás de descobrir &#8211; que fica sempre alto e longe &#8211; existe para ti uma lagoa meio escavada na rocha, com relva muito verde em parte das margens e cantos alegres de pássaros calmos.</p><p>Encontram-se lá os que amas, fortes e generosos. Sorridentes.</p><p>Há sol e também a sombra de altas árvores. Por cima, apenas o céu, à distância de um último salto.</p><p>Não é um destino inevitável, mas um lugar onde és esperado e que podes, ou não, alcançar, conforme a medida do teu desejo. Só quando lá chegares terás alcançado toda a tua envergadura. Só lá te encontrarás contigo mesmo.</p><p>Existes para chegar  a esse lago. Os teus olhos são capazes de pousar nas suas águas limpas, que reflectem já o céu que lhes há por cima.</p><p>Não se pode querer mal aos caminhos que conduzem a lugares assim, embora sejam escarpados e se torne impossível evitar ferimentos e cansaços quando se segue por eles.</p><p>Se o teu desejo de chegar for grande, nenhum esforço te parecerá demasiado penoso. E, embora vás a caminho, terás sempre contigo qualquer coisa que é já de ter chegado. Talvez uma certa forma de olhar, resultante daquela luz que se acende por dentro quando nos pomos a caminho dispostos a tudo o que aparecer.</p><p>E nem haverá problema se a morte te encontrar assim, ainda no gesto de subir: já tens em ti o teu lago, na imagem dele que te fez partir.</p><p>Não deves recusar a dor, porque ela te constrói, te marca os limites e te faz crescer por dentro dos teus muros.</p><p>Sem ela, não passarias de um projecto do homem que hás-de ser. Ela edifica-te os músculos, a cabeça e o coração, e não existe outra maneira de chegares a ser aquilo que deves vir a ser.</p><p>Se não sofresses não haveria ninguém dentro de ti.</p><p>No cumprimento sério dos teus deveres, encontrarás a dor na forma de esforço e de cansaço.</p><p>Mas pode muito bem ser que, tarde ou cedo, ela te procure sem disfarces e te faça chorar ou gemer. É frequente que ela se apresente assim, numa nudez que parece cruel e faz lembrar facas ou agulhas.</p><p>Nem por isso te deves assustar ou desistir.</p><p>Quando te parecer que tudo está perdido, ri-te, se puderes. É que te estão a oferecer um degrau que te deixará incomparavelmente mais acima no caminho. Deves ver nisso o sinal de que &#8211; por qualquer razão &#8211; é tempo de andares depressa.</p><p>Sobretudo, não te queixes. Há assim metamorfoses que parecem aniquilar, mas não passam de formas de fazer surgir a borboleta.</p><p>Não te queixes, porque receberás umas asas e cores novas.</p><p>O teu lago &#8211; de onde de tão perto se pode olhar o céu &#8211; tem um preço que tu saberás dar e não é tão grande assim.</p><div id="crp_related"><h3>Textos relacionados:</h3><ul><li><a href="http://cidadela.net/vai/" rel="bookmark" class="crp_title">Vai&#8230;</a><span class="crp_excerpt"> Para sonhar o que poucos ousaram sonhar. 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Lembramos perfeitamente a frase da mulher santa de Ávila, quando disse que esta vida não pode ser mais do que uma má noite numa má pousada.]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Sou o leproso e estou aqui. Não posso fazer muito mais coisas&#8230;</p><p>Já sabem: a carne apodrece-me e cai deixando feridas. Cheiro mal. Se pudessem ver-me, ainda tinha um resto de nariz para vos mostrar. E os olhos, no fundo de uns buracos que têm aumentado imenso.</p><p>Mas não seria agradável olharem para mim. Nem eu próprio olho para mim: deixei de usar espelho há muito tempo. Não é necessário, aliás, porque os outros leprosos quase todas as manhãs me vão contando as novidades. Acontece, normalmente depois de acordarmos. É que para nós também existem a noite e o dia, e muitas vezes conseguimos mesmo dormir no chão duro destas cavernas.</p><p>Dão-me os bons-dias e dizem qualquer coisa como: &#8220;Olha, pá, já não tens a orelha direita&#8221;. E a verdade é que nessas ocasiões nos rimos muito. Acho, até, que estamos proibidos de viver nas cidades dos homens porque não querem ver-nos rir.</p><p>O único riso verdadeiramente puro é o daquele que se ri de uma orelha que caiu. Mas poucos sabem disso.</p><p>Se caminhássemos pelas avenidas haviam de lembrar-se de que todas as orelhas inevitavelmente cairão. E não é agradável que recordem constantemente a alguém a ameaça cada vez mais próxima de um problema para o qual não possui solução.</p><p>Nós também não temos solução. Rimo-nos.</p><p>A solução está em não haver solução. E esta forma divertida de aceitarmos que a vida seja como é, este modo sossegado de cooperarmos com o inevitável, significa para nós uma serenidade que é um tesouro sem preço.</p><p>Para os outros, somos somente a lembrança desagradável de que não passam, também eles, de leprosos adiados e de futuros cadáveres; de que, sem dúvida, não terão neste lugar o seu paraíso, por mais que façam crescer o saldo da sua conta bancária.</p><p>Somos um grito em forma humana, um aviso irrecusável, uma censura que inevitavelmente se aloja no fundo das consciências.</p><p>E, por isso, fomos empurrados para estas cavernas. O que, de resto, não nos incomoda demasiado, pois todo o planeta é, de certo modo, uma caverna. Lembramos perfeitamente a frase da mulher santa de Ávila, quando disse que esta vida não pode ser mais do que uma má noite numa má pousada.</p><p>Não querem cruzar-se connosco. Desejam abraçar sem perturbações a voragem alucinante do seu caminho de prazer e vaidade. E viemos para estas cavernas. Os idosos foram expulsos das suas famílias e encerrados em &#8220;lares&#8221;. Planearam a eutanásia para se verem livres dos doentes. E abortaram aqueles que poderiam vir a nascer com deficiências. E muitos foram abandonados às suas dores na solidão de negros hospitais. E fizeram muitas outras coisas.</p><p>Mas, do fundo destes buracos, temos um segredo para lhes dizer. Quando, num momento de lucidez, descobrirem que tudo é vazio, venham ter connosco. Quando não souberem como fazer dos filhos homens direitos, passeiem com eles por um cemitério, sentem-se com eles à beira de um doente que sorri no leito onde vai morrer, levem-nos aos lugares onde há crianças esfomeadas a brincar, descalças e alegres.</p><p>Sim, podemos contar-lhes o segredo da alegria, o segredo da bondade das coisas más, o segredo da plenitude que habita as coisas simples.</p><div id="crp_related"><h3>Textos relacionados:</h3><ul><li><a href="http://cidadela.net/vida-bela/" rel="bookmark" class="crp_title">A vida é bela</a><span class="crp_excerpt"> Todos os homens podem, e devem, em qualquer circunstância, considerar ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/coisificados/" rel="bookmark" class="crp_title">Coisificados</a><span class="crp_excerpt"> Enquanto caminhávamos despreocupadamente pelo caminho de atribuirmos às coisas o ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/muito-mais-simples/" rel="bookmark" class="crp_title">Muito mais simples</a><span class="crp_excerpt"> Numa altura em que a droga adquire - no nosso ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/embrulho-sem-presente/" rel="bookmark" class="crp_title">Embrulho sem presente</a><span class="crp_excerpt"> O Natal já existia quando eu vim.No princípio era haver ...</span></li></ul></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://cidadela.net/leproso/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Embrulho sem presente</title><link>http://cidadela.net/embrulho-sem-presente/</link> <comments>http://cidadela.net/embrulho-sem-presente/#comments</comments> <pubDate>Sun, 13 Nov 2011 22:31:26 +0000</pubDate> <dc:creator>Paulo</dc:creator> <category><![CDATA[Textos em prosa de Paulo Geraldo]]></category> <category><![CDATA[Natal]]></category><guid isPermaLink="false">http://localhost/wordpress/?p=89</guid> <description><![CDATA[O Natal é só de quem há muito espera. De quem ainda não se encheu. É só de quem sonhou além das coisas e se vê ainda muito longe. É de quem tem chorado. De quem olha para dentro de si mesmo e sente medo. De quem não encontrou ainda o seu consolo. O Natal existe apenas onde existe a falta.]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>O Natal já existia quando eu vim.</p><p>No princípio era haver mais bolos lá em casa, como nas festas de aniversário, e também presentes. E era muito bom verificar que cabiam na mesma casa, connosco, os avós, os tios e os primos. Havia um calor qualquer que faltava no resto do ano. Um aconchego a que não sabia dar nome.</p><p>Depois, juntou-se a tudo isto o facto de o Natal acontecer dentro dessa outra coisa maravilhosa que eram as férias. E ganhou ainda mais encanto.</p><p>Mas chegou a idade de querer saber a razão funda das coisas. Saí para a rua, onde as pessoas compravam e vendiam presentes envolvidos em papéis de muitas cores. Mas os que compravam e vendiam não souberam dizer-me o que desejava. Falaram-me de como tinham de correr muito nessa época do ano; falaram-me de números e das poupanças que tinham feito; do seu esforço e de como a vida não estava boa para dar prendas.</p><p>Nada sabiam acerca do Natal. Deixei-as nas suas absurdas correrias e continuei a procurar. Nas ruas, as luzes não passavam de técnica comercial e, no fundo, tudo estava muito escuro.</p><p>E fui ver as famílias, lembrando-me de como, em pequeno, o Natal me rodeava quando estava com os meus. E vi como as famílias se continuavam a juntar. E como continuavam a caber muitos numa casa pequenina. Mas ficavam sentados, passando o tempo em frente da televisão. Havia monossílabos e gritos. E compreendi que era apenas por hábito que se reuniam. Pareceu-me que tinham perdido o Natal, conservando somente a roupagem do Natal. Era como se houvesse o embrulho bonito do presente, mas sem presente dentro.</p><p>Achei as famílias disparatadas e saí de novo.</p><p>Foi só quando já não sabia onde procurar que tive a minha resposta. Os meus passos vagabundos levaram-me até onde se tinham juntado aqueles que sabiam de dores. Não recordo já se era hospital ou prisão. Ou uma barraca de janelas abertas ao frio da noite. Uma mãe tinha perdido um filho. Outra tinha um filho doente. Um homem jazia imóvel num leito e gemia não sei que doença. Outro tinha um sonho grande e umas mãos pequenas, e sofria de não ser capaz. Havia cegos e alguns que, vendo, desejavam ver de um outro modo.</p><p>Não sei contar todos os casos, mas posso dizer que vi uma oração nos lábios de cada um deles; nos olhos de cada um, uma lágrima e, simultaneamente, um brilho de esperança. Os que podiam tinham-se ajoelhado &#8211; era quase meia-noite &#8211; à beira de uns bonecos de presépio, entre os quais estava o daquela que havia de ser mãe.</p><p>Uma mãe ainda sem o filho nos braços&#8230; mas era quase meia-noite!</p><p>E compreendi: o Natal é só de quem há muito espera. De quem ainda não se encheu. É só de quem sonhou além das coisas e se vê ainda muito longe. É de quem tem chorado. De quem olha para dentro de si mesmo e sente medo. De quem não encontrou ainda o seu consolo.</p><p>O Natal existe apenas onde existe a falta. Nós, que temos tudo &#8211; que pensamos que temos tudo &#8211; sofremos da terrível pobreza de não sabermos sequer que somos pobres.</p><p>O Natal não é para nós. Ainda não somos capazes de o entender&#8230;</p><div id="crp_related"><h3>Textos relacionados:</h3><ul><li><a href="http://cidadela.net/sentado-na-pedra/" rel="bookmark" class="crp_title">Sentado na pedra</a><span class="crp_excerpt"> Quis abraçar-te. 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Não tinha conseguido deixar de fechar os olhos, e, enquanto te abraçava, senti que estreitava um corpo que se tinha tornado bem maior. Que suava, que sangrava, que tinha sido golpeado.]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Quis abraçar-te. Havia a estrela, e aquela música tão diferente de todas as outras. Havia frio lá fora e tu estavas no aconchego da gruta. Havia ali reis de joelhos, e todos olhavam para ti, e parecia que nada mais existia senão olhar para ti e querer abraçar-te.</p><p>Quis abraçar-te porque eras assim pequeno e sem defesa, e os meus braços me pareciam fortes. Porque me tinham dito que eras Aquele que tínhamos esperado; que eras tu o fruto da grande espera. E que ao abraçar-te se abririam caminhos novos, com cores novas; e que veríamos aquilo que antes não podíamos ver; e que conheceríamos a música que tinha estado escondida durante longos séculos.</p><p>Quis abraçar-te e estendi os braços e trouxe-te para o meu regaço. A tua Mãe olhava-nos com um olhar que era de orgulho e de encorajamento.</p><p>Abracei-te. E beijei-te. Pareceu-me que queria comer-te com beijos e que isso era possível.</p><p>E foi então que sucederam muitas coisas que não esperava. Não tinha conseguido deixar de fechar os olhos, e, enquanto te abraçava, senti que estreitava um corpo que se tinha tornado bem maior. Que suava, que sangrava, que tinha sido golpeado.</p><p>Estremeci e abri os olhos. Mas já não havia reis, nem presentes; nem eu te abraçava já. Não se ouvia a música. A gruta tinha-se tornado fria, e nas palhinhas estava deitado um leproso.</p><p>Saí, a correr, da gruta. Assustado. Onde estarias? Lá fora, a paisagem tornara-se deserta e o sol queimava. Um abutre esperava a morte de uma criança escura, em extremo magra, que, quase deitada de bruços sobre a terra vermelha, não tinha forças para se mexer.</p><p>Onde estarias? Continuei a procurar-te &#8211; ou a fugir de tudo aquilo? Andei por muitos lugares. Cruzei-me com homens tristes e crianças ocas. Encontrei uma mulher cujo filho partira havia muito e não voltara; e um velho muito velho a quem não deixavam viver na casa da família que fundara. Vi os doentes e aqueles que, tendo saúde, sofriam por dentro qualquer coisa pior que a doença.</p><p>E, na minha correria, pareceu-me não ver na terra alegria nem festas, nem fogueiras nas casas. Embora os homens se agitassem muito em ruído e imitação de felicidade, pareceu-me que eram vazias todas as palavras que diziam. E tive pena deles. Toda a Terra era um mar de sofrimento e disparates. Onde estarias?</p><p>Sentei-me então numa pedra à beira do caminho, porque estava cansado e não entendia o que tinha sucedido. Porque precisava de pensar. E compreendi que tinha começado a ver aquilo que antes não podia ver, e que era isso o que me perturbava.</p><p>Passou o tempo e ainda aqui estou, sentado na pedra, à beira do caminho. Dói-me a cabeça e apenas consegui obter uma suspeita: talvez suceda que estejas escondido de alguma forma no leproso, nos homens tristes, nos doentes, na criança que sofre. E que, fugindo deles, eu fuja de ti. E que, para te abraçar, eu tenha de os abraçar. Tive este pressentimento porque é sempre com eles que me encontro quando te procuro.</p><p>Talvez exista um mistério e seja necessária coragem para o entender. Pode muito bem ser que não tenhas vindo para nos oferecer uma festa com presentes, mas para nos confiar uma tarefa: a mesma que escolheste para ti. Dar a vida pelos outros, não foi?</p><p>E se eu fosse, devagarinho, até à gruta? Existe valor em dar um primeiro passo. Se eu partir, talvez se acenda uma luz nesta cabeça que me dói; talvez pelo caminho ganhe coragem; talvez consiga, até, abraçar o leproso. Talvez já te possa ver nas palhinhas&#8230;</p><div id="crp_related"><h3>Textos relacionados:</h3><ul><li><a href="http://cidadela.net/embrulho-sem-presente/" rel="bookmark" class="crp_title">Embrulho sem presente</a><span class="crp_excerpt"> O Natal já existia quando eu vim.No princípio era haver ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/uma-maneira/" rel="bookmark" class="crp_title">Uma maneira</a><span class="crp_excerpt"> Estavas ali e nem sequer choravas Pousado como uma cadeira ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/zero/" rel="bookmark" class="crp_title">O Zero</a><span class="crp_excerpt"> O Zero sentia-se vazio. Olhava para si mesmo e não ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/jogo-das-pedrinhas/" rel="bookmark" class="crp_title">O jogo das pedrinhas</a><span class="crp_excerpt"> Havia pouca gente no estabelecimento quando entrei. Enquanto tomava o ...</span></li></ul></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://cidadela.net/sentado-na-pedra/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Irmãos pequenos do vento</title><link>http://cidadela.net/irmaos-pequenos-vento/</link> <comments>http://cidadela.net/irmaos-pequenos-vento/#comments</comments> <pubDate>Sun, 13 Nov 2011 16:44:03 +0000</pubDate> <dc:creator>Paulo</dc:creator> <category><![CDATA[Textos em prosa de Paulo Geraldo]]></category> <category><![CDATA[Educação]]></category> <category><![CDATA[filhos]]></category> <category><![CDATA[valores]]></category> <category><![CDATA[virtudes]]></category><guid isPermaLink="false">http://localhost/wordpress/?p=117</guid> <description><![CDATA[Mil vezes podíamos ter morrido, mil vezes podíamos ter sido assaltados, mil vezes podíamos ter adoecido gravemente. Mas sempre que superávamos uma dificuldade tornávamo-nos mais fortes, mais capazes de enfrentar o que viesse. Servíamo-nos dos nossos adversários para crescer. A dor tornava-nos resistentes à dor; a necessidade de nos esforçarmos aumentava a nossa força; uma derrota levava a que nos conhecêssemos melhor.Sobrevivemos. Éramos os irmãos pequenos do vento. Gostávamos de sentir a chuva a escorrer do cabelo para a face.]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Eu e os outros fomos protagonistas de um milagre. Ninguém ainda conseguiu explicar como estamos vivos neste momento&#8230; Ninguém encontra uma razão para o facto de termos ultrapassado as fases da infância e da adolescência.</p><p>Fazíamos coisas disparatadas sem que alguém nos protegesse. Saíamos em grupo para tomar banho no velho açude, mesmo sem antes termos aprendido a nadar correctamente. Partíamos de bicicleta, sem capacete, para tão longe quanto aguentassem as forças ou a fome. Íamos sem destino. Entrávamos em cavernas e perdíamo-nos lá dentro. Trepávamos muros altos para entrarmos em casas abandonadas, onde estabelecíamos o nosso refúgio. Fazíamos explorações, rasgávamo-nos, sujávamo-nos.</p><p>Íamos a pé para a escola, mesmo quando estava a chover, mesmo quando ficava longe.</p><p>E lutávamos uns com os outros. Esmurrávamo-nos. Partíamos, por vezes, ossos e dentes. Organizávamos, na mata do castelo, grandes combates, nos quais utilizávamos espadas de madeira que tínhamos construído. Sabíamos bem &#8211; por experiência própria, e não apenas porque nos tivessem dito &#8211; que uma ferida profunda doía e demorava algum tempo a cicatrizar. Viver, para nós, não podia ser sem correr riscos. Ou éramos de todo inconscientes ou pensávamos que um anjo cuidava de nós.</p><p>Não havia um animador que viesse ensinar-nos modos correctos de brincar. Nem organizações que fabricassem para nós formas de ocupação dos tempos livres. Não tínhamos tempos livres. Não sei, aliás,  como pudemos sobreviver a tanta actividade.</p><p>Não parávamos. Tínhamos apetite: comíamos como cavalos e não ficávamos obesos. O Sol alojava-se em nós e fazia-se cor e saúde.</p><p>Inventávamos as nossas brincadeiras e nunca precisámos de comprar jogos caros. Usávamos paus, pedras, velhos pneus, uma corda&#8230; Não tivemos jogos electrónicos, 99 canais a cabo, filmes em vídeo, telemóveis, computadores ou Internet.</p><p>Tivemos  amigos.</p><p>Passávamos horas e horas a brincar lá fora com eles. Como não havia os telemóveis, muitas vezes ninguém sabia exactamente onde estávamos. Resolvíamos os nossos problemas. Lidávamos sozinhos com um pneu furado na bicicleta, com um dia de tempestade, com um objecto perdido. Descobríamos a maneira de arranjar uma bola de futebol, de apanhar um grilo, de fazer uma fogueira. Aprendíamos a lidar com cada um dos nossos companheiros, com as nossas capacidades, com as circunstâncias mais variadas.</p><p>Crescíamos.</p><p>Nem em casa sossegávamos muito, porque tínhamos irmãos.</p><p>Os nossos pais ainda não conheciam as novas regras sobre o trabalho infantil. Mas também conseguimos sobreviver ao facto de termos de fazer a cama, cozinhar algumas das nossas refeições, ajudar a pintar a casa, preparar a roupa para vestir no dia seguinte, varrer a sala, lavar a louça.</p><p>Fazíamos loucuras. Brincávamos com cães não vacinados, bebíamos todos pela mesma garrafa, secávamos a roupa no corpo. Dávamo-nos com gente pouco recomendável. Pedíamos boleias. Entrávamos em acampamentos de ciganos e tínhamos lá amigos. Aprendíamos coisas com eles.</p><p>Mil vezes podíamos ter morrido, mil vezes podíamos ter sido assaltados, mil vezes podíamos ter adoecido gravemente. Mas sempre que superávamos uma dificuldade tornávamo-nos mais fortes, mais capazes de enfrentar o que viesse. Servíamo-nos dos nossos adversários para crescer. A dor tornava-nos resistentes à dor; a necessidade de nos esforçarmos aumentava a nossa força; uma derrota levava a que nos conhecêssemos melhor.</p><p>Sobrevivemos. Éramos os irmãos pequenos do vento. Gostávamos de sentir a chuva a escorrer do cabelo para a face.</p><div id="crp_related"><h3>Textos relacionados:</h3><ul><li><a href="http://cidadela.net/e-tao-bom-ser-pequenino/" rel="bookmark" class="crp_title">É tão bom ser pequenino</a><span class="crp_excerpt"> Recordo o cheiro dos lençóis lavados, a guerra para lavar ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/castelo/" rel="bookmark" class="crp_title">O castelo</a><span class="crp_excerpt"> A família é por natureza um bastião, um castelo, um ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/poema-nossa-juventude/" rel="bookmark" class="crp_title">Poema da nossa juventude</a><span class="crp_excerpt"> Quando abrimos os olhos e decidimos lutar Compreendemos que a ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/impaciencia/" rel="bookmark" class="crp_title">Impaciência</a><span class="crp_excerpt"> O problema reside, em certa medida, na impaciência.  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Depois disso passaram 365 dias em que me encantei e me desencantei; em que me cansei; em que aprendi o que gostaria de não ter aprendido; em que descobri mais coisas que já não sou capaz de fazer. Envelheci. Mas os meus alunos, cujos rostos ainda não sei associar aos nomes, têm os mesmos 13 anos de há um ano atrás. É, de certa forma, estranho... O tempo passou por mim, mas não por aqueles que se encontram agora sentados à minha frente.]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Recomeçaram as aulas. É tempo de retomar gestos familiares, em desuso durante umas semanas. Tempo de estar de novo à frente de um grupo desconhecido de alunos que esperam que lhes diga alguma coisa. Digo o meu nome e nunca sei muito bem o que devo dizer a seguir, mas as coisas acabam sempre por se comporem. Quando penso no que devo dizer, nunca digo aquilo que pensei previamente. E já me deixei disso.</p><p>Felizmente, daqui a poucos dias já nos conheceremos perfeitamente. Nunca precisamos de muito tempo para nos conhecermos bem&#8230; O que não for dito agora virá mais tarde e permanecerá. Saberão &#8211; não é preciso que lhes diga agora &#8211; que farei com que se cansem. Saberão que para chegar ao poema é preciso exercitar antes a sintaxe e outras coisas aborrecidas. Hão-de queixar-se, mas eu terei vontade de rir quando vierem a descobrir, surpreendidos, que são capazes do poema. Só lá para o 3º Período&#8230; Antes disso, terão de escrever e apagar, escrever de novo, ouvir uma reprimenda, levar um recado para os pais&#8230;</p><p>Recomeçaram as aulas. Há exactamente um ano eu era um ano mais novo. Depois disso passaram 365 dias em que me encantei e me desencantei; em que me cansei; em que aprendi o que gostaria de não ter aprendido; em que descobri mais coisas que já não sou capaz de fazer. Envelheci. Mas os meus alunos, cujos rostos ainda não sei associar aos nomes, têm os mesmos 13 anos de há um ano atrás. É, de certa forma, estranho&#8230; O tempo passou por mim, mas não por aqueles que se encontram agora sentados à minha frente.</p><p>É sempre assim. E, sempre que é tempo de suceder isto, eu sei que o mundo está salvo. Enquanto houver jovens de 13 anos, o mundo está salvo.</p><p>Porque as minhas alunas adoram crianças &#8211; quase todas desejam ter, no futuro, profissões como educadora de infância ou médica pediatra. Porque gostam imenso de animais e gostariam muito de praticar equitação, se isso aqui fosse possível. Porque têm uma letra bonita e põem a língua de fora enquanto escrevem a composição que lhes mandei fazer.</p><p>Porque os meus alunos são saudavelmente tontos, como é próprio desta idade, mas têm neles um espaço para o sonho e para uma ambição que não fechou ainda as portas à nobreza. Porque têm um dinamismo enorme e não conseguem estar quietos durante muito tempo. Escrevem, no papel que lhes entreguei, que tencionam tirar um curso superior, mas ainda não sabem qual&#8230; e isso é delicioso.</p><p>Porque sabem dizer os seus defeitos e as suas qualidades com uma clareza notável, e ainda não aprenderam muito bem a ocultar, a torcer, a disfarçar.</p><p>Porque há ali vidas abertas a aprender, a ser mais, a ser melhor.</p><p>Recomeçaram as aulas. E em cada um dos alunos deste grupo &#8211; no meio do qual não me sinto perdido porque&#8230; afinal há muitos anos que os conheço &#8211; há um sorriso, uma promessa e um mistério.</p><p>E encho-me de esperança, porque é possível que não reparem muito em nós e no nosso mau exemplo. Porque pode acontecer que se cansem da podridão que lhes servimos na televisão e se dediquem a ter amigos, a ouvir música, a ler, a pintar, a escrever, a disparates sadios. Porque talvez muitos deles encontrem ao longo dos próximos anos uma orientação para a sua força, um norte para a sua ambição, um ombro para os seus desânimos: alguém sem medo de lhes dizer a verdade sobre a vida, o amor, o sofrimento e a morte.</p><div id="crp_related"><h3>Textos relacionados:</h3><ul><li><a href="http://cidadela.net/boas-notas/" rel="bookmark" class="crp_title">Boas notas</a><span class="crp_excerpt"> Os pais têm um grande desejo de que os seus ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/e-tao-bom-ser-pequenino/" rel="bookmark" class="crp_title">É tão bom ser pequenino</a><span class="crp_excerpt"> Recordo o cheiro dos lençóis lavados, a guerra para lavar ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/andre/" rel="bookmark" class="crp_title">O André</a><span class="crp_excerpt"> O André já cá não está. 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É talvez como ter já os tijolos e, no entanto, sentirmo-nos incapazes de encontrar o cimento que os una, lhes dê forma, consistência e identidade.]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Recordo o cheiro dos lençóis lavados, a guerra para lavar os dentes, histórias contadas antes de adormecer. O desejo de chegar a casa, o aconchego e, depois, outra vez a vontade de sair.</p><p>Corria para a minha mãe quando caía e me magoava. Não para o meu pai, porque seria preciso dar muitas explicações e ouvir de novo o racional &#8220;Eu já te tinha avisado&#8230;&#8221;.</p><p>Um prato especial nos dias de festa. Birras. É preciso vestir aquela roupa nova. É a tua vez de lavar a louça.</p><p>Não sei muito bem a partir de que idade é que os irmãos deixam de ser irritantes&#8230;</p><p>Depois do jantar fazíamos jogos e entretínhamo-nos uns com os outros. Por vezes, quando era Verão, saíamos a passear e apanhávamos pirilampos.</p><p>A chuva lá fora, o calor dentro de casa. Um livro. Um amigo que vem lanchar. Um ralhete porque desta vez passámos dos limites e as calças vêm cheias de lama. Já te disse tantas vezes que não se deve deixar aí a roupa suja&#8230;</p><p>Acordar com um beijo. Adormecer com uma oração.</p><p>Natal. Os primos. Visitas a casa dos avós. Brincadeiras. Às vezes notar, sem notar, uma expressão semelhante a tristeza ou cansaço no rosto do pai ou no rosto da mãe. Depois, brincadeira de novo. Música, flores, sorrisos. É tão bom ser pequenino&#8230;</p><p>Coisas pequenas. Diárias. Vulgares. Mas enormes, únicas, cheias de magia.</p><p>Durante muito tempo estive convencido de que era a infância que acendia nas pequenas coisas de todos os dias essa música e esse encanto que agora recordo. Que era por ser pequeno na altura que todas essas coisas são agora especiais. Mas há tantas pessoas que foram também pequenas e nunca poderão ter recordações destas&#8230; E não porque não tivessem tido pais, ou porque estes os tivessem maltratado ou porque tivessem sido demasiado pobres.</p><p>Geralmente não é muito difícil casar, ter filhos, uma casa para viver. Mas depois de se conseguir isso podemos chegar à conclusão de que é muitíssimo difícil construir uma família. É talvez como ter já os tijolos e, no entanto, sentirmo-nos incapazes de encontrar o cimento que os una, lhes dê forma, consistência e identidade.</p><p>É fundamental ter uma infância feliz&#8230; E começámos então a dar aos filhos coisas excelentes e actividades fantásticas e experiências divertidas. E enchemos de trabalho os dias, para lhes podermos dar tudo isso. Saímos, portanto, de casa. E a casa esvaziou-se.</p><p>E deixámos de viver com os filhos. As coisas fantásticas que lhes demos acabaram por ocupar quase todo o tempo em que deveríamos ter estado com eles.</p><p>É muito fácil errar o caminho.</p><p>Ao crescer, descobri que para se ter os lençóis lavados e passados a ferro é preciso frequentemente deitar-se mais tarde e dormir menos.</p><p>Aprendi que é preciso ter paciência para fazer uma criança ganhar o hábito de lavar os dentes ou deixar a roupa suja no local correcto. E que a paciência dói.</p><p>Reparei em que as pessoas mais velhas gostam de sossego depois do jantar, porque se cansam facilmente. E que, por isso, tem um alto preço fazer nessa altura jogos com crianças ou correr atrás de pirilampos.</p><p>Vim assim a saber que o cimento da família é aquilo que se faz pelos outros, deixando de fazer aquilo de que se gosta, para os ver felizes, para os construir, para os ajudar a chegar a onde devem chegar. Aquelas pequenas coisas da minha infância foram grandes, afinal, porque eram feitas de um amor sacrificado e escondido.</p><p>Esse amor toca naquilo que é pequeno e engrandece-o. Desenha flores no pó do quotidiano. Só ele permanece.</p><div id="crp_related"><h3>Textos relacionados:</h3><ul><li><a href="http://cidadela.net/uma-carta/" rel="bookmark" class="crp_title">Uma carta</a><span class="crp_excerpt"> Mãe e pai, não sei muito bem por que comecei ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/arroz-de-polvo/" rel="bookmark" class="crp_title">Arroz de polvo</a><span class="crp_excerpt"> Sucedeu-me uma vez comer arroz de polvo tendo sido eu ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/gente-como-nos/" rel="bookmark" class="crp_title">Gente como nós</a><span class="crp_excerpt"> Não entendo os telejornais, os jornais, os noticiários.  Há ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/boas-notas/" rel="bookmark" class="crp_title">Boas notas</a><span class="crp_excerpt"> Os pais têm um grande desejo de que os seus ...</span></li></ul></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://cidadela.net/e-tao-bom-ser-pequenino/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Duas datas</title><link>http://cidadela.net/duas-datas/</link> <comments>http://cidadela.net/duas-datas/#comments</comments> <pubDate>Wed, 03 Nov 2010 22:29:34 +0000</pubDate> <dc:creator>Paulo</dc:creator> <category><![CDATA[Textos em prosa de Paulo Geraldo]]></category> <category><![CDATA[arrependimento]]></category> <category><![CDATA[conhecimento próprio]]></category> <category><![CDATA[conversão]]></category> <category><![CDATA[interioridade]]></category> <category><![CDATA[morte]]></category> <category><![CDATA[tempo]]></category> <category><![CDATA[verdade]]></category><guid isPermaLink="false">http://localhost/wordpress/?p=83</guid> <description><![CDATA[Pensei que somente a inocência - a primeira ou a conquistada - se reveste realmente de imortalidade. Que outra coisa poderia ser eterna? Porque é ela a beleza interior e, quanto à beleza exterior - aos penteados, aos lenços, aos bigodes... - estamos conversados: pó...]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Novembro é, mais do que todos os outros, um mês apropriado para entrar num cemitério. E eu fui. Um dia surpreendentemente de sol, talvez já do &#8220;Verão de S. Martinho&#8221;, que não costuma ser extraordinariamente rigoroso em pontualidade.</p><p>E vi-os. Alguns de bigode, outros com óculos. Algumas com aqueles lenços de aldeia nas cabeças; outras com penteados de cabeleireiro, agora tão inúteis como os lenços. Uns com os nomes da moda &#8211; dados já depois de terem chegado as telenovelas brasileiras -, outros com nomes que já foram da moda: Ermelinda, Eurico, Armindo&#8230; (Eu não digo? O computador está a assinalar erros nestas palavras&#8230;).</p><p>Tão diferentes uns dos outros nas idades, nas fotografias, nas datas &#8211; sempre duas, sempre só duas &#8211; que descansam junto dos nomes. Tão diferentes na aparência exterior dos jazigos, nas flores &#8211; quase todas já secas&#8230; &#8211; que os adornam, nas visitas que recebem.</p><p>Mas tão igualados na morte, tão igualmente despidos de tempo e de coisas. Todos eles resumidos, de forma semelhante, em duas datas &#8211; sempre duas, sempre só duas.</p><p>Tiveram um nome de aqui, protegeram os corpos dentro de roupas como as nossas, pisaram as pedras destas ruas, albergaram carinhos nos corações. Tiveram problemas e alegrias, cantaram, deram prendas. Fizeram o bem e o mal.</p><p>Nem todos. Porque li &#8220;inocente&#8221; em algumas placas. Alguns andaram por aqui tão breves instantes&#8230; Não houve ocasiões para se sujarem, não houve tempo para deixarem crescer dentro deles a semente de mal que traziam consigo.</p><p>Como aqueles três irmãos, todos pequenos, que morreram no mesmo dia juntamente com a mãe. Imagino que tenha sido um acidente, talvez na estrada. Piedoso acontecimento &#8211; digo eu, tentando ver nele um lado bom -, pois permitiu que nunca aquela mãe passasse pelo tormento de ver um filho morto; pois permitiu àquelas crianças não saberem nunca que coisa é viver sem mãe.</p><p>Ou como aquela menina que viveu&#8230; um dia. Beijaram-na, vestiram-lhe umas roupinhas, baptizaram-na, fizeram-lhe uma fotografia. Flor de um dia&#8230; Flor eterna porque inocente.</p><p>Pensei que somente a inocência &#8211; a primeira ou a conquistada &#8211; se reveste realmente de imortalidade. Que outra coisa poderia ser eterna? Porque é ela a beleza interior e, quanto à beleza exterior &#8211; aos penteados, aos lenços, aos bigodes&#8230; &#8211; estamos conversados: pó&#8230;</p><p>E fiquei a pensar nos outros, naqueles que viveram muitos dias. Em particular, naquele que juntou, entre a primeira e a última datas &#8211; sempre duas, sempre só duas -, o mesmo número de anos que tenho agora&#8230; Pensei, enfim, nos que viveram o tempo suficiente para saberem o que são o bem e o mal, para se tornarem responsáveis pelo seu comportamento. Naqueles que inevitavelmente se cobriram de culpas.</p><p>Pensei neles porque a culpa é o oposto da inocência, porque a culpa destrói a inocência. E, depois disso acontecer, será necessário recuperá-la, se aspirarmos &#8211; e aspiramos &#8211; a viver sempre.</p><p>Talvez a grande tarefa da nossa vida seja tornarmo-nos de novo meninos: virmos a ser, por um esforço de vontade, aquilo que eles são pela idade.</p><p>Temos algum tempo para isso. Até chegar&#8230; a segunda data.</p><div id="crp_related"><h3>Textos relacionados:</h3><ul><li><a href="http://cidadela.net/inimigo/" rel="bookmark" class="crp_title">O inimigo</a><span class="crp_excerpt"> Os dias são diferentes uns dos outros. Sucedem connosco, e ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/conversas-surdos/" rel="bookmark" class="crp_title">Conversas de surdos</a><span class="crp_excerpt"> Não nos entendemos uns aos outros.  Grande parte dos ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/fascinio-autenticidade/" rel="bookmark" class="crp_title">Fascínio e autenticidade</a><span class="crp_excerpt"> Costuma haver no homem duas medidas que geralmente não coincidem. ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/mundo-esta-salvo/" rel="bookmark" class="crp_title">O mundo está salvo</a><span class="crp_excerpt"> Recomeçaram as aulas. É tempo de retomar gestos familiares, em ...</span></li></ul></div>]]></content:encoded> <wfw:commentRss>http://cidadela.net/duas-datas/feed/</wfw:commentRss> <slash:comments>0</slash:comments> </item> <item><title>Porque ele está ali</title><link>http://cidadela.net/porque-esta-ali/</link> <comments>http://cidadela.net/porque-esta-ali/#comments</comments> <pubDate>Fri, 23 Oct 2009 23:24:37 +0000</pubDate> <dc:creator>Paulo</dc:creator> <category><![CDATA[Textos em prosa de Paulo Geraldo]]></category> <category><![CDATA[amor]]></category> <category><![CDATA[conversão]]></category> <category><![CDATA[conviver]]></category> <category><![CDATA[Família]]></category> <category><![CDATA[felicidade]]></category> <category><![CDATA[generosidade]]></category> <category><![CDATA[ideal]]></category> <category><![CDATA[sonho]]></category> <category><![CDATA[verdade]]></category><guid isPermaLink="false">http://cidadela.net/porque-ele-esta-ali/</guid> <description><![CDATA[Os que ficaram lá em baixo chamam-nos loucos. Encolhemos os ombros: esses queridos estão vivos, mas ainda estão mortos. Uma pessoa não vive quando vive apenas para si mesma. Não se vive sem sal, sem risco, sem aventura. Estão a precisar de uma inundação de alegria.E tu? Eu quereria que partisses. Não necessariamente de um lugar para outro, mas para fora de ti. Para onde precisam de ti. Para te encontrares.]]></description> <content:encoded><![CDATA[<p>Algumas vezes sabemos dentro de nós que devemos fazer qualquer coisa semelhante a plantar uma árvore, mesmo sabendo que nunca comeremos dos seus frutos nem descansaremos à sua sombra. Ou descobrimos que devemos aplicar-nos não tanto ao nosso pequeno problema, mas a reconstruir as ruínas imensas que nos rodeiam. E nunca como então somos tão grandes. E nunca como então estamos tão perto de nós mesmos.</p><p>Quem compreendeu o que é a verdade amou-a. Procurou e escavou. Desejou-a para si e para os outros, porque não há outra luz. Depois sofreu por ela, porque em toda a volta a mentira é poderosa. E continuou, sem se calar, com esse amor e a sua dor.</p><p>Quem vive para a família é habitado por ela e torna-se maior e faz o que nunca faria se vivesse para si mesmo.</p><p>Aquele que escutou os gritos silenciosos das crianças assassinadas antes de verem a luz &#8211; e as dores das mães enganadas que sofrem sem remédio &#8211; leva consigo o maior peso do mundo. Aparentemente pode pouco contra aqueles que se instalaram nos lugares onde se fazem as leis e se manobram televisões e jornais. Mas é um gigante todo aceso. Queima. E são os seus braços que sustentam este mundo doente.</p><p>E há o que quis ser médico não para garantir uma vida cómoda, mas para devolver ao mundo sorrisos que se tinham perdido. E o que sofre em si toda a fome de África. E o que se enamorou da justiça. E aquele que cuida de crianças incuráveis.</p><p>Uma vez perguntaram a um alpinista por que desejava escalar o alto pico nevado. Respondeu: &#8220;Porque ele está ali&#8221;. Queria com isso dizer a naturalidade do encontro do homem com o seu sonho, com a sua tarefa, consigo mesmo.</p><p>É triste viver sem grandeza. É como estar longe de nós mesmos. É ver apenas as sombras do mundo e da vida. É, de algum modo, não viver&#8230;</p><p>As coisas grandes são aquelas que o amor nos leva a fazer, e muitas vezes realizam-se por meio de pequenos gestos. Fazem-se pisando os nossos apetites e gostos, abandonando o cómodo estojo no qual temos tendência a encerrar a nossa existência.</p><p>Um dia sabemos que temos de partir. Que temos de fazer da vida uma outra coisa. Simplesmente isto. E vamos&#8230;</p><p>Nunca mais a paz de sermos inúteis; nunca mais os prazeres que não saciam, nunca mais a ânsia de segurança que nos vai roendo a juventude e a alegria.</p><p>É difícil subir o monte altíssimo. É preciso trocar tudo pelo instante mágico de chegar ao cume. Ali tudo é radicalmente verdadeiro: não é possível fingir que se vai a caminho. Deixam-se as forças na íngreme escalada, rasga-se a pele nos rochedos, abandona-se o aconchego do calor do corpo ao vento e à neve e ao gelo. Caímos e apetece-nos ficar por ali. Por vezes não sabemos se conseguimos dar mais um passo.</p><p>Mas é tão belo! Só ali se respira verdadeiramente. Só ali se vêem todas as coisas com o seu verdadeiro relevo e com as suas cores verdadeiras. Só ali um homem se sente realmente rico &#8211; ele que deixou tudo lá em baixo.</p><p>Os amigos que se fazem na montanha duram para sempre: nasceram da magra ração repartida debaixo das estrelas, de se apoiarem uns aos outros quando o que estava em jogo era a vida ou a morte, de cantarem juntos, das longas confidências testemunhadas apenas pelo vento.</p><p>Na montanha os amigos não são descartáveis companheiros de divertimento: precisam mesmo uns dos outros, fazem parte uns dos outros, uns são os outros.<br /> Os que ficaram lá em baixo chamam-nos loucos. Encolhemos os ombros: esses queridos estão vivos, mas ainda estão mortos. Uma pessoa não vive quando vive apenas para si mesma. Não se vive sem sal, sem risco, sem aventura. Estão a precisar de uma inundação de alegria.</p><p>E tu? Eu quereria que partisses. Não necessariamente de um lugar para outro, mas para fora de ti. Para onde precisam de ti. Para te encontrares.</p><p>E, se às vezes te falo de paciência, digo-te agora que te apresses. Tenho pressa de te conhecer. Se também eu for corajoso, havemos de nos encontrar e saberei o teu nome. Trocaremos um abraço forte e saberemos que era necessário que nos encontrássemos.</p><div id="crp_related"><h3>Textos relacionados:</h3><ul><li><a href="http://cidadela.net/tempo-que-resta/" rel="bookmark" class="crp_title">O tempo que nos resta</a><span class="crp_excerpt"> De súbito sabemos que é já tarde.Quando a luz se ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/asas/" rel="bookmark" class="crp_title">As asas</a><span class="crp_excerpt"> A vida é breve, a alma é vasta: Ter é ...</span></li><li><a href="http://cidadela.net/vai/" rel="bookmark" class="crp_title">Vai&#8230;</a><span class="crp_excerpt"> Para sonhar o que poucos ousaram sonhar. 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