Lisboa
Lisboa dorme em leito junto ao Tejo
E o Tejo dorme junto de Lisboa
Há um silêncio grande e não se olham
Amantes para quem passou o tempo
Lisboa diz-se agora em tons cinzentos
E não há outra cor para falar dela
Os homens morrem dentro de Lisboa
Aquela que esqueceu a voz antiga
Presos de uma voragem do não ser
Agonizam lado a lado em carruagens
De metropolitano em autocarros
Que levam sempre a onde não se vive
À volta de Lisboa há camaratas
Partida de manhã regresso à noite
Sem espaço para a luz sem céus de sol
Há em olhá-los a clara sensação
De vermos gado obedientes filas
De condenados tristes tristes tristes
Lisboa morre dentro de Lisboa
Da morte do anseio e da procura
Algures terá havido um não Lisboa morre
Em cada um que agoniza na tristeza
De não haver já a caravela
Ou de não ser capaz de embarcar nela