Tudo o que faço ou medito
Fica sempre na metade.
Querendo, quero o infinito.
Fazendo, nada é verdade.
(Fernando Pessoa)

Não consigo, tantas vezes, levantar-me da cama à hora marcada. Não tenho sido capaz de me deitar na altura devida. Sei que devia sorrir em certas ocasiões, mas não o faço. Talvez porque não tenha dormido o suficiente.

Deixei de ajudar na cozinha, aproveitando já não sei que situação extraordinária lá em casa, e depois disso deixei passar o tempo sem retomar esse serviço. Passam-se dias e dias antes de que me convença a executar o gesto de engraxar os sapatos. Qualquer dia vou à escola falar com os Directores de Turma dos meus filhos…

Já disse a mim mesmo inúmeras vezes que não tornaria a perder um minuto da minha vida sentado sem um objectivo à frente da televisão. Prometi que estaria disponível para as crianças no pouco tempo que passamos juntos, mas o jornal…

Irrito-me com quem faz alguma coisa mal feita, mas nem sempre acabo com perfeição a tarefa que tenho entre as mãos. Os papéis continuam desarrumados na minha secretária. Guardo em mim pequenos rancores. Há dias voltei a esquecer-me do aniversário do meu irmão.

Fiz algumas aldrabices, talvez suficientemente pequenas para que não se possam chamar mentiras, mas suficientemente reais para que a minha consciência não me ache muito honesto.

Mas, tirando tudo isto, trago em mim todos os sonhos grandes e nobres. Sei exactamente qual é o remédio para a situação do mundo. Gostava de gastar a minha vida para o tornar melhor. Dou óptimos conselhos.

E sofro, mesmo a sério, com os que passam fome. Quereria ir até junto deles e ajudar. Dá-me vontade, às vezes, de pegar em armas e ir batalhar ao lado de homens a quem tiraram as casas e vivem na selva e dormem enrolados em cobertores em noites de geada e lutam contra canhões com espingardas desactualizadas. Ou de ser escudo humano. Ou de me tornar poderoso e fazer a justiça toda que faz falta a este mundo.

Gostaria de abraçar todos os que sofrem. Quereria estar presente no local dos terramotos logo nos instantes seguintes e ajudar a retirar dos escombros gente viva. Sou tolinho – ou lúcido? – como a criança a quem perguntam, pelo Natal, que presentes deseja para o mundo.

Muitas vezes me pergunto de que tamanho sou. Não sei se sou este, ou se sou o outro, o da preguiça e da vida morna.

O poema do início continua assim: Que nojo de mim me fica / Ao olhar para o que faço! / Minha alma é lúcida e rica, / E eu sou um mar de sargaço.

Um mar de sargaço.

Quando reparo no que faço, sinto-me longe de mim. E tenho pena. Se existe dentro de um homem um desejo elevado e nobre, é porque o homem deve vir a ser do tamanho desse desejo. Será uma tarefa para a vida toda, mas compreendi que corro o risco de nunca passar de um sentimental meio vazio – e de falhar a vida – se deixar a minha nobreza apenas no plano da imaginação; se fugir daquilo que é concreto e óbvio: o relógio, a ordem, o pequeno sorriso, as pessoas ao lado, a verdade inteira…

Está mais construído do que eu aquele que nunca sonhou coisas longe, mas sabe ser grande no pequeno dever de todos os dias, naquilo que está ao alcance da mão.

E vim a descobrir que é belo um homem estar com plenitude no seu lugar, como a peça de relógio que realiza bem a sua função e permite assim que o conjunto funcione. Que essa é, sem dúvida, uma forma de ir longe e colaborar e construir o mundo.