Faltaste uns dias ao trabalho, e eu soube que tinhas feito uma amniocentese.

Quando regressaste, explicaste-me que se trata de um exame destinado a verificar se o filho que trazes dentro de ti tem alguma doença grave, como, por exemplo, Síndrome de Down. E que é um procedimento doloroso e incómodo.

Se fosses outra pessoa, eu podia ter adivinhado a resposta e manter-me calado, mas antes de pensar nisso a pergunta saiu-me. Para que querias tu saber isso? Só me veio à cabeça que não valia muito a pena preocupares-te com uma possível dificuldade grande, antes de ela acontecer e sem teres ainda as energias necessárias para a enfrentar.

Explicaste que, se realmente se verificasse uma doença dessas, poderias abortar e, dessa forma, resolver o problema.

Não te imaginava capaz de matar um filho. Devo ter ficado de boca aberta, porque imediatamente atiraste uma série de justificações. Se eu imaginava como seria a qualidade de vida de uns pais condenados a tratar de um filho gravemente doente. As horas de fisioterapia, os gastos em medicamentos, as faltas ao trabalho. E a qualidade de vida que teria a criança. E o que seria dela depois de os pais morrerem.

Pensei, com tristeza, naquilo que sei acerca da “qualidade de vida” de algumas pessoas que fizeram abortos voluntários. Tenho a certeza de que a qualidade de vida consiste em ter alegria e paz, e de que não é possível tê-las depois de matar um filho.

E de que se pode tê-las passando horas e horas a cuidar de um filho que precisa muito de cuidados. Muitas mães fortes que conheço, e estão entre as pessoas que mais admiro, sorriem e cantam quando muitos só conseguem ver, nas vidas que elas levam, motivos para sofrimentos.

Não posso levar a sério um amor pelo filho que leva a eliminá-lo para lhe poupar uma doença grave. Se eu tivesse uma doença grave, a minha mãe cuidaria de mim. Julgo que, embora sem o admitires, estarias mais preocupada com o teu próprio futuro.

Talvez suceda que algumas circunstâncias da tua vida te tenham levado a centrares-te demasiado em ti mesma e a esqueceres que são as mães que existem para os filhos e não os filhos que existem para as mães.

Talvez tenhas sofrido pressões, influências, e estejas a falhar a interpretação do amor. É que não há amor que seja fácil. Se te acenam com um assim, é porque ele é falso.

O amor é inseparável da morte. Sabes que amas porque te esqueceste de que existes; porque morreste para ti mesma, para viveres naqueles que amas. Se eles estiverem bem, então tu estás bem, ainda que estejas mal.

Amar é dares-te. É não pensares em ti. É não quereres saber dos teus gostos, do teu bem-estar, do teu descanso, dos teus projectos, do teu futuro, por andares muito ocupada em construir aqueles que te rodeiam. É veres nessa morte para ti mesma o sentido e a plenitude da tua existência. Quanto mais deres de ti, quanto mais te doer o teu amor, mais alegria terás. E mais paz. Porque amas mais.

Não é possível, evidentemente, aplicar isto ao comportamento de uma mulher – ainda me recuso a pensar que fosses capaz de fazer isso – disposta a matar o seu filho para evitar os problemas que teria com a sua vinda ao mundo.

Se falhares o amor, falharás a vida e a existência. O filósofo dinamarquês Kierkegaard teve esta expressão magnífica: “Enganar-se a respeito da natureza do amor é a mais espantosa das perdas. É uma perda eterna, para a qual não existe compensação nem no tempo nem na eternidade: a privação mais horrorosa, que não é possível recuperar nem nesta vida… nem na futura!”

Talvez suceda que coisas que viveste, ou viste ao teu redor, te tenham levado a teres medo, e a fazeres com base nele os projectos para a tua felicidade. Mas o medo faz encolher.

Não tenhas medo. Não queiras controlar tudo. Não julgues que a felicidade tem o pequeno tamanho que a tua comodidade te sugere. Há muitas coisas para além desse horizonte estreito. Deixa que a vida te leve a esses lugares que receias pisar. Não pressentes que aí descobrirás muitas coisas e te descobrirás a ti mesma?

Quando os acontecimentos escapam ao teu domínio, e te arrastam para onde não quererias ir, o resultado é sempre surpreendente e enriquecedor. Forçada a desafios inesperados, vês brotar de ti forças e capacidades que desconhecias; cresces por dentro; descobres luzes novas e uma nova dimensão de todas as coisas; aprendes que não estás só. É como se alguém, com pena de ti, te conduzisse a um lugar maravilhoso onde nunca saberias chegar com os teus pequenos projectos.

Não há amor que não exija coragem. E é também certo que se o teu amor for verdadeiro – e não uma forma disfarçada de procurares a tua satisfação pessoal – terás toda a coragem de que necessitas. Tu ainda não sabes o que és capaz de fazer! Não imaginaste, sequer, aquilo que há para além da curva do medo! Tens andado a fugir… de ti e da felicidade.