Quando tomámos conhecimento dos horrorosos ataques terroristas realizados nos Estados Unidos, num dia 11 de Setembro, fizemos a nós mesmos – ou uns aos outros – uma pergunta. A mesma que já tínhamos feito antes, quando os jornais nos trouxeram notícia de outros actos igualmente monstruosos embora com um menor número de vítimas e com uma divulgação mais pequena.

E essa pergunta permanece ainda, como substracto de muitas outras que nos ocorrem e que são também colocadas por quase todas as pessoas à nossa volta, neste planeta azul que neste momento parece mesmo tomar a forma de um gigantesco ponto de interrogação global. Perguntamos: como é possível que um ser humano possa conceber e planear uma acção destas, com um tal desprezo pela vida – própria  e alheia? Que processo terá levado a que esses homens se transformassem em monstros que nada têm de humano?

Ficamos intrigados… O que significa que não nos conhecemos bem a nós mesmos.

Nunca nos passou pela cabeça que aquilo que os terroristas procuravam alcançar com este atentado era, a seus olhos, uma coisa boa? Era, sem dúvida – para eles – um objectivo grandioso e belo, pelo qual merecia a pena dar a vida. Não me parece que aqueles homens fossem apenas inexplicáveis seres perversos. Um terrorista é alguém que procura o que deseja sem se importar de actuar mal para o conseguir.

Se olharmos para a nossa vida, é possível que encontremos situações em que se tenha verificado uma destas coisas: tentámos alcançar certos objectivos – mesmo objectivos bons – utilizando meios que sabíamos serem maus; procurámos alcançá-los sabendo que isso poderia causar de algum modo prejuízos a outras pessoas.

Há, em geral, dois géneros de processos para alcançarmos os nossos objectivos: um deles é trabalhoso e demorado, até talvez de sucesso improvável; o outro é curto e relativamente fácil, mas não está de acordo com o que a consciência nos dita. Por exemplo, assaltar um banco é uma forma rápida de enriquecer; dizer uma mentira é uma maneira fácil de resolver certos problemas; usar uma cábula num exame é um processo cómodo de ter uma boa nota.

Provavelmente nunca fizemos nada disto, mas muitas vezes quisemos chegar aos nossos objectivos utilizando para isso meios indignos. Considerámos que aquilo que desejávamos era uma coisa boa e que não fazia grande mal se utilizássemos, para o conseguir, processos maus. Pusemos em prática o terrível princípio de que os fins justificam os meios, embora o tenhamos feito em assuntos a que chamamos de pouca importância.

É muito possível que a diferença entre nós e esses terroristas seja apenas… uma questão de tamanho: não temos objectivos tão grandes; não temos todo o dinheiro e todos os meios de que eles dispunham; nada do que possamos fazer pode provocar tanto mal a uma multidão tão grande. Se estivéssemos nas circunstâncias deles – e se continuássemos a adoptar o princípio de que se pode fazer um acto mau para conseguir um objectivo bom – é possível que tivéssemos procedido do mesmo modo: de um modo que hoje qualificamos com os piores adjectivos.

Somos terroristas em ponto pequeno. E é dentro de cada um de nós que deve começar o combate ao terrorismo no mundo.