A preguiça é um defeito pequeno. Quando pergunto a um aluno se é preguiçoso, diz-me que sim com um sorriso que nem chega a ser envergonhado.

Não custa confessar a preguiça. A preguiça não tem má fama. Entre tantas coisas tão graves que se podem fazer, e de que temos notícia, as pessoas que não quiseram ser más concederam a si mesmas o pequeno defeito da preguiça. Do mal, o menos: já que ninguém passa por aqui sem fazer algum mal, então que seja um mal pequeno.

Pusemos na moda a moleza, o exagero no descanso, os tempos mortos, o desleixo, a imperfeição. Há uma série de coisas que passámos a considerar demasiado difíceis ou desnecessárias…

A preguiça é, sem dúvida, um defeito pequeno. Mas é um hábito: gera constantemente em nós novas atitudes de um mesmo género. E a repetição de atitudes de um determinado género, boas ou más, acaba por influenciar toda a nossa maneira de ser. Não podemos isolar um hábito destes, de forma a impedi-lo de marcar de algum modo toda a nossa personalidade e toda a nossa vida.

Sucede como com as sementes. Crescem. Estendem-se. Alastram.

E há sementes pequenas que acabam por produzir grandes árvores. Demasiado grandes, por vezes. O Principezinho de Saint-Exupéry andava, e com razão, preocupadíssimo com as sementes de embondeiro, porque o seu planeta era muito pequeno: menor do que um embondeiro crescido… O embondeiro é um exemplo de uma árvore demasiado grande.

Aquele que permite uma semente pequena está a autorizar uma árvore talvez grande. E torna-se responsável pela actividade da árvore.

Por preguiça, podemos chegar a fazer coisas que são bastante piores do que a preguiça. Por preguiça, um homem bom pode ir realizando pequenas coisas más e, aos poucos, deixar de ser um homem bom. Pode deixar de fazer as coisas boas que tinha obrigação de fazer e, assim, roubar ao mundo uma certa porção de bem, de beleza, de alegria. Pode transformar-se em alguém que para pouco serve.

Por preguiça, pode acontecer que façamos o nosso trabalho sem perfeição e que isso prejudique muito outras pessoas. Por preguiça, deito-me tarde. E, como no dia seguinte tenho de me levantar à hora habitual, passo o dia com sono, enervado e mal disposto. Discuto com a minha mulher ou com os meus filhos por coisas de nada. O embondeiro começa a destruir o meu pequeno planeta…

Por preguiça,  saio do sofá um pouco depois do último minuto admissível e vou para a estrada a correr. Excesso de velocidade. Alguns acidentes tiveram esta origem. É que a preguiça gera a pressa. É mesmo uma das principais causas da pressa. E a pressa tem feito muitas vítimas.

O verdadeiro rosto de um homem apressado – que não tem tempo para estar com os outros, para os ouvir, para os ajudar – é quase sempre o de alguém que passa, em alguma zona da sua vida, demasiado tempo a fazer coisas inúteis ou despropositadas.

Por preguiça, um homem pode chegar ao final desta vida sem ter chegado a conhecer-se bem a si mesmo e sem ter conhecido muito daquilo que seria fundamental ter conhecido. Pode atingir o último centímetro do seu tempo e verificar que tem as mãos vazias.