O jogo das pedrinhas

O senhor partiu do princípio de que a filha podia estar a mentir. Não estava… mas abriu as mãos.

Enquanto tomava o meu café assisti ao instante exacto em que aquela menina aprendeu que não era merecedora de confiança, que não acreditavam nela, que a sua palavra não tinha valor. Que esperavam dela que fosse capaz de enganar os outros para alcançar os seus objectivos.

Aos três anos. Num jogo. Com o pai.

O lago

Quando te parecer que tudo está perdido, ri-te, se puderes. É que te estão a oferecer um degrau que te deixará incomparavelmente mais acima no caminho. Deves ver nisso o sinal de que – por qualquer razão – é tempo de andares depressa.
Sobretudo, não te queixes. Há assim metamorfoses que parecem aniquilar, mas não passam de formas de fazer surgir a borboleta.
Não te queixes, porque receberás umas asas e cores novas.

O leproso

Somos um grito em forma humana, um aviso irrecusável, uma censura que inevitavelmente se aloja no fundo das consciências.

E, por isso, fomos empurrados para estas cavernas. O que, de resto, não nos incomoda demasiado, pois todo o planeta é, de certo modo, uma caverna. Lembramos perfeitamente a frase da mulher santa de Ávila, quando disse que esta vida não pode ser mais do que uma má noite numa má pousada.

Embrulho sem presente

O Natal é só de quem há muito espera. De quem ainda não se encheu. É só de quem sonhou além das coisas e se vê ainda muito longe. É de quem tem chorado. De quem olha para dentro de si mesmo e sente medo. De quem não encontrou ainda o seu consolo. O Natal existe apenas onde existe a falta.