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	<title>Cidadela &#187; Textos em prosa de Paulo Geraldo</title>
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	<description>Trabalhos de Paulo Geraldo</description>
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		<title>Irmãos pequenos do vento</title>
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		<pubDate>Mon, 25 Jan 2010 20:44:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eu e os outros fomos protagonistas de um milagre. Ninguém ainda conseguiu explicar como estamos vivos neste momento&#8230; Ninguém encontra uma razão para o facto de termos ultrapassado as fases da infância e da adolescência.
 Fazíamos coisas disparatadas sem que alguém nos protegesse. Saíamos em grupo para tomar banho no velho açude, mesmo sem antes [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Eu e os outros fomos protagonistas de um milagre. Ninguém ainda conseguiu explicar como estamos vivos neste momento&#8230; Ninguém encontra uma razão para o facto de termos ultrapassado as fases da infância e da adolescência.</p>
<p> Fazíamos coisas disparatadas sem que alguém nos protegesse. Saíamos em grupo para tomar banho no velho açude, mesmo sem antes termos aprendido a nadar correctamente. Partíamos de bicicleta, sem capacete, para tão longe quanto aguentassem as forças ou a fome. Íamos sem destino. Entrávamos em cavernas e perdíamo-nos lá dentro. Trepávamos muros altos para entrarmos em casas abandonadas, onde estabelecíamos o nosso refúgio. Fazíamos explorações, rasgávamo-nos, sujávamo-nos. </p>
<p> Íamos a pé para a escola, mesmo quando estava a chover, mesmo quando ficava longe.</p>
<p> E lutávamos uns com os outros. Esmurrávamo-nos. Partíamos, por vezes, ossos e dentes. Organizávamos, na mata do castelo, grandes combates, nos quais utilizávamos espadas de madeira que tínhamos construído. Sabíamos bem &#8211; por experiência própria, e não apenas porque nos tivessem dito &#8211; que uma ferida profunda doía e demorava algum tempo a cicatrizar. Viver, para nós, não podia ser sem correr riscos. Ou éramos de todo inconscientes ou pensávamos que um anjo cuidava de nós.</p>
<p> Não havia um animador que viesse ensinar-nos modos correctos de brincar. Nem organizações que fabricassem para nós formas de ocupação dos tempos livres. Não tínhamos tempos livres. Não sei, aliás,  como pudemos sobreviver a tanta actividade.</p>
<p> Não parávamos. Tínhamos apetite: comíamos como cavalos e não ficávamos obesos. O Sol alojava-se em nós e fazia-se cor e saúde.</p>
<p> Inventávamos as nossas brincadeiras e nunca precisámos de comprar jogos caros. Usávamos paus, pedras, velhos pneus, uma corda&#8230; Não tivemos jogos electrónicos, 99 canais a cabo, filmes em vídeo, telemóveis, computadores ou Internet. </p>
<p> Tivemos  amigos. </p>
<p> Passávamos horas e horas a brincar lá fora com eles. Como não havia os telemóveis, muitas vezes ninguém sabia exactamente onde estávamos. Resolvíamos os nossos problemas. Lidávamos sozinhos com um pneu furado na bicicleta, com um dia de tempestade, com um objecto perdido. Descobríamos a maneira de arranjar uma bola de futebol, de apanhar um grilo, de fazer uma fogueira. Aprendíamos a lidar com cada um dos nossos companheiros, com as nossas capacidades, com as circunstâncias mais variadas.</p>
<p> Crescíamos.</p>
<p> Nem em casa sossegávamos muito, porque tínhamos irmãos.</p>
<p> Os nossos pais ainda não conheciam as novas regras sobre o trabalho infantil. Mas também conseguimos sobreviver ao facto de termos de fazer a cama, cozinhar algumas das nossas refeições, ajudar a pintar a casa, preparar a roupa para vestir no dia seguinte, varrer a sala, lavar a louça.</p>
<p> Fazíamos loucuras. Brincávamos com cães não vacinados, bebíamos todos pela mesma garrafa, secávamos a roupa no corpo. Dávamo-nos com gente pouco recomendável. Pedíamos boleias. Entrávamos em acampamentos de ciganos e tínhamos lá amigos. Aprendíamos coisas com eles. </p>
<p> Mil vezes podíamos ter morrido, mil vezes podíamos ter sido assaltados, mil vezes podíamos ter adoecido gravemente. Mas sempre que superávamos uma dificuldade tornávamo-nos mais fortes, mais capazes de enfrentar o que viesse. Servíamo-nos dos nossos adversários para crescer. A dor tornava-nos resistentes à dor; a necessidade de nos esforçarmos aumentava a nossa força; uma derrota levava a que nos conhecêssemos melhor.</p>
<p> Sobrevivemos. Éramos os irmãos pequenos do vento. Gostávamos de sentir a chuva a escorrer do cabelo para a face.</p>
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		<title>Porque ele está ali</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Oct 2009 23:24:37 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Algumas vezes sabemos dentro de nós que devemos fazer qualquer coisa semelhante a plantar uma árvore, mesmo sabendo que nunca comeremos dos seus frutos nem descansaremos à sua sombra. Ou descobrimos que devemos aplicar-nos não tanto ao nosso pequeno problema, mas a reconstruir as ruínas imensas que nos rodeiam. E nunca como então somos tão [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Algumas vezes sabemos dentro de nós que devemos fazer qualquer coisa semelhante a plantar uma árvore, mesmo sabendo que nunca comeremos dos seus frutos nem descansaremos à sua sombra. Ou descobrimos que devemos aplicar-nos não tanto ao nosso pequeno problema, mas a reconstruir as ruínas imensas que nos rodeiam. E nunca como então somos tão grandes. E nunca como então estamos tão perto de nós mesmos.</p>
<p>Quem compreendeu o que é a verdade amou-a. Procurou e escavou. Desejou-a para si e para os outros, porque não há outra luz. Depois sofreu por ela, porque em toda a volta a mentira é poderosa. E continuou, sem se calar, com esse amor e a sua dor.</p>
<p>Quem vive para a família é habitado por ela e torna-se maior e faz o que nunca faria se vivesse para si mesmo.</p>
<p>Aquele que escutou os gritos silenciosos das crianças assassinadas antes de verem a luz &#8211; e as dores das mães enganadas que sofrem sem remédio &#8211; leva consigo o maior peso do mundo. Aparentemente pode pouco contra aqueles que se instalaram nos lugares onde se fazem as leis e se manobram televisões e jornais. Mas é um gigante todo aceso. Queima. E são os seus braços que sustentam este mundo doente.</p>
<p>E há o que quis ser médico não para garantir uma vida cómoda, mas para devolver ao mundo sorrisos que se tinham perdido. E o que sofre em si toda a fome de África. E o que se enamorou da justiça. E aquele que cuida de crianças incuráveis.</p>
<p>Uma vez perguntaram a um alpinista por que desejava escalar o alto pico nevado. Respondeu: &#8220;Porque ele está ali&#8221;. Queria com isso dizer a naturalidade do encontro do homem com o seu sonho, com a sua tarefa, consigo mesmo.</p>
<p>É triste viver sem grandeza. É como estar longe de nós mesmos. É ver apenas as sombras do mundo e da vida. É, de algum modo, não viver&#8230;</p>
<p>As coisas grandes são aquelas que o amor nos leva a fazer, e muitas vezes realizam-se por meio de pequenos gestos. Fazem-se pisando os nossos apetites e gostos, abandonando o cómodo estojo no qual temos tendência a encerrar a nossa existência.</p>
<p>Um dia sabemos que temos de partir. Que temos de fazer da vida uma outra coisa. Simplesmente isto. E vamos&#8230;</p>
<p>Nunca mais a paz de sermos inúteis; nunca mais os prazeres que não saciam, nunca mais a ânsia de segurança que nos vai roendo a juventude e a alegria.</p>
<p>É difícil subir o monte altíssimo. É preciso trocar tudo pelo instante mágico de chegar ao cume. Ali tudo é radicalmente verdadeiro: não é possível fingir que se vai a caminho. Deixam-se as forças na íngreme escalada, rasga-se a pele nos rochedos, abandona-se o aconchego do calor do corpo ao vento e à neve e ao gelo. Caímos e apetece-nos ficar por ali. Por vezes não sabemos se conseguimos dar mais um passo.</p>
<p>Mas é tão belo! Só ali se respira verdadeiramente. Só ali se vêem todas as coisas com o seu verdadeiro relevo e com as suas cores verdadeiras. Só ali um homem se sente realmente rico &#8211; ele que deixou tudo lá em baixo.</p>
<p>Os amigos que se fazem na montanha duram para sempre: nasceram da magra ração repartida debaixo das estrelas, de se apoiarem uns aos outros quando o que estava em jogo era a vida ou a morte, de cantarem juntos, das longas confidências testemunhadas apenas pelo vento.</p>
<p>Na montanha os amigos não são descartáveis companheiros de divertimento: precisam mesmo uns dos outros, fazem parte uns dos outros, uns são os outros.<br />
Os que ficaram lá em baixo chamam-nos loucos. Encolhemos os ombros: esses queridos estão vivos, mas ainda estão mortos. Uma pessoa não vive quando vive apenas para si mesma. Não se vive sem sal, sem risco, sem aventura. Estão a precisar de uma inundação de alegria.</p>
<p>E tu? Eu quereria que partisses. Não necessariamente de um lugar para outro, mas para fora de ti. Para onde precisam de ti. Para te encontrares.</p>
<p>E, se às vezes te falo de paciência, digo-te agora que te apresses. Tenho pressa de te conhecer. Se também eu for corajoso, havemos de nos encontrar e saberei o teu nome. Trocaremos um abraço forte e saberemos que era necessário que nos encontrássemos.</p>
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		<title>Sentado na pedra</title>
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		<pubDate>Thu, 01 Oct 2009 19:44:50 +0000</pubDate>
		<dc:creator>paulo</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Quis abraçar-te. Havia a estrela, e aquela música tão diferente de todas as outras. Havia frio lá fora e tu estavas no aconchego da gruta. Havia ali reis de joelhos, e todos olhavam para ti, e parecia que nada mais existia senão olhar para ti e querer abraçar-te.
 Quis abraçar-te porque eras assim pequeno e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Quis abraçar-te. Havia a estrela, e aquela música tão diferente de todas as outras. Havia frio lá fora e tu estavas no aconchego da gruta. Havia ali reis de joelhos, e todos olhavam para ti, e parecia que nada mais existia senão olhar para ti e querer abraçar-te.</p>
<p> Quis abraçar-te porque eras assim pequeno e sem defesa, e os meus braços me pareciam fortes. Porque me tinham dito que eras Aquele que tínhamos esperado; que eras tu o fruto da grande espera. E que ao abraçar-te se abririam caminhos novos, com cores novas; e que veríamos aquilo que antes não podíamos ver; e que conheceríamos a música que tinha estado escondida durante longos séculos.</p>
<p> Quis abraçar-te e estendi os braços e trouxe-te para o meu regaço. A tua Mãe olhava-nos com um olhar que era de orgulho e de encorajamento.</p>
<p> Abracei-te. E beijei-te. Pareceu-me que queria comer-te com beijos e que isso era possível.</p>
<p> E foi então que sucederam muitas coisas que não esperava. Não tinha conseguido deixar de fechar os olhos, e, enquanto te abraçava, senti que estreitava um corpo que se tinha tornado bem maior. Que suava, que sangrava, que tinha sido golpeado.</p>
<p> Estremeci e abri os olhos. Mas já não havia reis, nem presentes; nem eu te abraçava já. Não se ouvia a música. A gruta tinha-se tornado fria, e nas palhinhas estava deitado um leproso.</p>
<p> Saí, a correr, da gruta. Assustado. Onde estarias? Lá fora, a paisagem tornara-se deserta e o sol queimava. Um abutre esperava a morte de uma criança escura, em extremo magra, que, quase deitada de bruços sobre a terra vermelha, não tinha forças para se mexer.</p>
<p> Onde estarias? Continuei a procurar-te &#8211; ou a fugir de tudo aquilo? Andei por muitos lugares. Cruzei-me com homens tristes e crianças ocas. Encontrei uma mulher cujo filho partira havia muito e não voltara; e um velho muito velho a quem não deixavam viver na casa da família que fundara. Vi os doentes e aqueles que, tendo saúde, sofriam por dentro qualquer coisa pior que a doença.</p>
<p> E, na minha correria, pareceu-me não ver na terra alegria nem festas, nem fogueiras nas casas. Embora os homens se agitassem muito em ruído e imitação de felicidade, pareceu-me que eram vazias todas as palavras que diziam. E tive pena deles. Toda a Terra era um mar de sofrimento e disparates. Onde estarias?</p>
<p> Sentei-me então numa pedra à beira do caminho, porque estava cansado e não entendia o que tinha sucedido. Porque precisava de pensar. E compreendi que tinha começado a ver aquilo que antes não podia ver, e que era isso o que me perturbava.</p>
<p> Passou o tempo e ainda aqui estou, sentado na pedra, à beira do caminho. Dói-me a cabeça e apenas consegui obter uma suspeita: talvez suceda que estejas escondido de alguma forma no leproso, nos homens tristes, nos doentes, na criança que sofre. E que, fugindo deles, eu fuja de ti. E que, para te abraçar, eu tenha de os abraçar. Tive este pressentimento porque é sempre com eles que me encontro quando te procuro.</p>
<p> Talvez exista um mistério e seja necessária coragem para o entender. Pode muito bem ser que não tenhas vindo para nos oferecer uma festa com presentes, mas para nos confiar uma tarefa: a mesma que escolheste para ti. Dar a vida pelos outros, não foi?</p>
<p> E se eu fosse, devagarinho, até à gruta? Existe valor em dar um primeiro passo. Se eu partir, talvez se acenda uma luz nesta cabeça que me dói; talvez pelo caminho ganhe coragem; talvez consiga, até, abraçar o leproso. Talvez já te possa ver nas palhinhas&#8230;</p>
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		<title>A orquestra</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Sep 2009 19:20:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Gosto de ir ver a orquestra.
 Vou ouvi-la, também, mas gosto mesmo é de a ver: enche-se-me a alma de uma outra forma; junto à beleza da música o encanto de ver o homem ser como deve ser.
 Dominar um instrumento musical leva muito tempo. É preciso tornar os gestos sólidos e finos. Exige o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Gosto de ir ver a orquestra.</p>
<p> Vou ouvi-la, também, mas gosto mesmo é de a ver: enche-se-me a alma de uma outra forma; junto à beleza da música o encanto de ver o homem ser como deve ser.</p>
<p> Dominar um instrumento musical leva muito tempo. É preciso tornar os gestos sólidos e finos. Exige o aperfeiçoamento constante de qualquer coisa que nasceu connosco, deve desenvolver-se dentro de nós e brotar mais tarde, com naturalidade, como a água da fonte. </p>
<p> Assim solta a flor as suas pétalas: após um longo processo.</p>
<p> Gosto de ir ver a orquestra. Um homem cresce longamente por dentro de si, num tempo grande de isolamento, em esforço e privação, com o sol do outro lado da janela, e depois parece que isso não lhe serve para benefício próprio. Depois apaga-se, mergulha numa zona mais ou menos escura, ao lado de outros como ele. Depois não se torna conhecido, não gritam o seu nome, não se torna rico.</p>
<p> Passa despercebido. </p>
<p> O belo som que produz &#8211; que longamente aprendeu a produzir &#8211; é incapaz de se encher de sentido sozinho. Alguns instrumentos podem ser ouvidos, com agrado, sem acompanhamento; outros, nem por isso&#8230; Mas cada um deles só se torna verdadeiramente grande quando se apaga e se faz esquecer, passando oculto, como simples gota de água, no mar maravilhoso que é a sinfonia.</p>
<p> E há uma obediência maravilhosa. Um senhor de aspecto frágil, já com certa idade e ar de sábio, tem nas mãos uma batuta e dirige com gestos ligeiros todos aqueles sons e todas aquelas vontades individuais. O violinista não se liberta quando lhe apetece. E não pode brilhar: deve conter-se, prendendo-se aos seus tempos próprios e ao papel concreto que lhe corresponde.</p>
<p> Há muitos olhos atentos à mão que segura a batuta. Não se sentem constrangidos nem se revoltam. Procuram é a fidelidade ao seu pequeno papel, a melhor forma de passarem despercebidos: a perfeição pequena que é necessária à grande perfeição da sinfonia.</p>
<p> Obedecem porque querem. E eu gosto de ir ver a orquestra também porque compreendo de novo que é possível obedecer com liberdade, e que não é humano fazê-lo à maneira dos escravos: com raiva e de má-vontade. </p>
<p> Há qualquer coisa extremamente desagradável na escravatura. Não só naquela que era imposta e existiu abundantemente em tempos antigos, mas nessa outra que muitas pessoas praticam quando são contrariadas &#8211; porque a vida não os pode satisfazer sempre &#8211; no caminho errado da sua pequena ambição individual.</p>
<p> O homem livre escolhe obedecer, para que possa existir a sinfonia. É nela que ele se torna grande. E ama o seu papel, indiferente ao brilho, maior ou menor, que lhe corresponda.</p>
<p> Não há nada maior para fazer do que a sinfonia. O homem deseja ser grande e tem os seus sonhos. Mas se aquilo que sonha for verdadeiramente grande, ele não poderá realizá-lo sozinho. Um homem por si só não é capaz de construir uma ponte, ou uma estrada, ou uma universidade. Ou a paz, ou uma família. Não educará os filhos. Não será sequer capaz de se construir a si próprio.</p>
<p> É perdendo-se na sinfonia que ele se encontra a si mesmo do tamanho que sonhou.</p>
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		<title>Virgo</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Sep 2009 19:19:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Não quero usar-te. Não tenciono ganhar experiência à tua custa. Não quero que sejas um episódio na minha vida, nem desejo estar de passagem pela tua. 
Não penso que a vida seja uma brincadeira, embora se possa brincar com quase tudo. Sou ainda novo e tenho muito que descobrir, mas aprendi a amar aquilo que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não quero usar-te. Não tenciono ganhar experiência à tua custa. Não quero que sejas um episódio na minha vida, nem desejo estar de passagem pela tua. </p>
<p>Não penso que a vida seja uma brincadeira, embora se possa brincar com quase tudo. Sou ainda novo e tenho muito que descobrir, mas aprendi a amar aquilo que é sólido e permanece. Sou demasiado ambicioso para querer menos que o máximo, e não trocarei o meu sonho por ilusões, ainda que sejam doces e agradáveis.</p>
<p>Estabeleci para a minha vida ter filhos e fazer da educação deles, da tarefa de fazer deles homens, o grande sentido do tempo que me for dado para estar aqui. Outros terão objectivos diferentes, mas foi com isto que sonhei. Quero edificar uma casa sólida que dure séculos. Nela crescerão os meus filhos e os filhos dos meus filhos&#8230; até vir a ser, com o tempo, uma bela cidade. No meu sonho, vi a miudagem correndo à beira de um ribeiro, com os olhos limpos, traquinas e alegres.</p>
<p>Por isso, embora sinta isto que sabes que sinto, embora sintas aquilo que sei que sentes, talvez se torne necessário dizer-te, e dizer-me, que pode não chegar o dia em que troquemos palavras de amor. </p>
<p>Mas esta carta pode também ser o alicerce do belo edifício que construiremos juntos e há-de permanecer para sempre.</p>
<p>Tens ainda tempo para vires a ser como te sonhei; tenho ainda tempo para me tornar merecedor de te ter como te sonhei.</p>
<p>Torna-te toda mistério e luz.</p>
<p>Luz porque quero ver-te inteira &#8211; sem névoas nem disfarces nem complicações &#8211; quando te olhar nos olhos; mistério porque quero que cresças por dentro, em silêncio, e te enchas, em segredo, daquelas riquezas que só se devem manifestar quando nos entregamos a alguém para sempre.</p>
<p>Enfeita-te interiormente, sobretudo. Como a flor para a qual não chegou ainda a Primavera e vai preparando recatadamente as suas cores e os seus aromas.</p>
<p>Demora-te no teu tempo e não permitas a pressa. E ajuda-me a não ter pressa.</p>
<p>Veste vestidos compridos, se puderes, e não saias curtas ou calças apertadas. Sempre me pareceu que certas formas de vestir não são senão a manifestação de um vazio interior muito grande. Algumas que vejo passar na rua fazem-me lembrar montras de talhos.</p>
<p>Aquela que vai para a rua mostrar as formas do seu corpo atrai os homens que procuram na mulher um corpo, e assim se torna semelhante à prostituta. E assim se desgraça e os desgraça. Assim passa de mulher a corpo de mulher, tornando-se infinitamente menor do que devia ser.</p>
<p>Mas eu quero que sejas do tamanho de seres mulher. Quero que sejas forte.</p>
<p>Porque, embora possa não parecer, sei que sou frágil. E aquela que há-de ser a mãe dos meus filhos fará a meu lado toda a aventura da vida, e será a minha força e os muros da minha cidade e o ombro para o meu cansaço.</p>
<p>&#8220;Virgo&#8221; era a palavra que, no meu sonho, encontrei inscrita numa pedra de umas ruínas que bem podiam ser as ruínas do mundo. Por ela me apaixonei.</p>
<p>Vim mais tarde a saber que significa &#8220;virgem&#8221; e já não era muito usada. Disseram-me que tem, em latim, a mesma raiz da palavra &#8220;força&#8221;.<br />e. No meu sonho, vi a miudagem correndo à beira de um ribeiro, com os olhos limpos, traquinas e alegres.</p>
<p>Por isso, embora sinta isto que sabes que sinto, embora sintas aquilo que sei que sentes, talvez se torne necessário dizer-te, e dizer-me, que pode não chegar o dia em que troquemos palavras de amor. </p>
<p>Mas esta carta pode também ser o alicerce do belo edifício que construiremos juntos e há-de permanecer para sempre.</p>
<p>Tens ainda tempo para vires a ser como te sonhei; tenho ainda tempo para me tornar merecedor de te ter como te sonhei.</p>
<p>Torna-te toda mistério e luz.</p>
<p>Luz porque quero ver-te inteira &#8211; sem névoas nem disfarces nem complicações &#8211; quando te olhar nos olhos; mistério porque quero que cresças por dentro, em silêncio, e te enchas, em segredo, daquelas riquezas que só se devem manifestar quando nos entregamos a alguém para sempre.</p>
<p>Enfeita-te interiormente, sobretudo. Como a flor para a qual não chegou ainda a Primavera e vai preparando recatadamente as suas cores e os seus aromas.</p>
<p>Demora-te no teu tempo e não permitas a pressa. E ajuda-me a não ter pressa.</p>
<p>Veste vestidos compridos, se puderes, e não saias curtas ou calças apertadas. Sempre me pareceu que certas formas de vestir não são senão a manifestação de um vazio interior muito grande. Algumas que vejo passar na rua fazem-me lembrar montras de talhos.</p>
<p>Aquela que vai para a rua mostrar as formas do seu corpo atrai os homens que procuram na mulher um corpo, e assim se torna semelhante à prostituta. E assim se desgraça e os desgraça. Assim passa de mulher a corpo de mulher, tornando-se infinitamente menor do que devia ser.</p>
<p>Mas eu quero que sejas do tamanho de seres mulher. Quero que sejas forte.</p>
<p>Porque, embora possa não parecer, sei que sou frágil. E aquela que há-de ser a mãe dos meus filhos fará a meu lado toda a aventura da vida, e será a minha força e os muros da minha cidade e o ombro para o meu cansaço.</p>
<p>&#8220;Virgo&#8221; era a palavra que, no meu sonho, encontrei inscrita numa pedra de umas ruínas que bem podiam ser as ruínas do mundo. Por ela me apaixonei.</p>
<p>Vim mais tarde a saber que significa &#8220;virgem&#8221; e já não era muito usada. Disseram-me que tem, em latim, a mesma raiz da palavra &#8220;força&#8221;.</p>
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		<title>Vai&#8230;</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Sep 2009 19:18:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Para sonhar o que poucos ousaram sonhar. Para realizar aquilo que já te disseram que não podia ser feito. Para alcançar a estrela inalcançável.
 Essa será a tua tarefa: alcançar essa estrela. Sem quereres saber quão longe ela se encontra; nem de quanta esperança necessitarás; nem se poderás ser maior do que o teu medo. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Para sonhar o que poucos ousaram sonhar. Para realizar aquilo que já te disseram que não podia ser feito. Para alcançar a estrela inalcançável.</p>
<p> Essa será a tua tarefa: alcançar essa estrela. Sem quereres saber quão longe ela se encontra; nem de quanta esperança necessitarás; nem se poderás ser maior do que o teu medo. </p>
<p> Apenas nisso vale a pena gastares a tua vida.</p>
<p> Para carregar sobre os ombros o peso do mundo. Para lutar pelo bem sem descanso e sem cansaço. Para enxugar todas as lágrimas ou para lhes dar um sentido luminoso. </p>
<p> Levarás a tua juventude a lugares onde se pode morrer, porque precisam lá de ti. Pisarás terrenos que muitos valentes não se atreveriam a pisar. Partirás para longe, talvez sem saíres do mesmo lugar.</p>
<p> Para amar com pureza e castidade. Para devolver à palavra &#8220;amigo&#8221; o seu sabor a vento e rocha. Para ter muitos filhos nascidos também do teu corpo e &#8211; ou &#8211; muitos mais nascidos apenas do teu coração. </p>
<p> Para dar de novo todo o valor às palavras dos homens. Para descobrir os caminhos que há no ventre da noite. Para vencer o medo.</p>
<p> Não medirás as tuas forças. O anjo do bem te levará consigo, sem permitir que os teus pés se magoem nas pedras. Ele, que vigia o sono das crianças e coloca nos seus olhos uma luz pura que apetece beijar, é também guerreiro forte.</p>
<p> Verás a tua mão tocar rochedos grandes e fazer brotar deles água verdadeira. Olharás para tudo com espanto. Saberás que, sendo tu nada, és capaz de uma flor no esterco e de um archote no escuro.</p>
<p> Para sofrer aquilo que não sabias ser capaz de sofrer. Para viver daquilo que mata. Para saber as cores que existem por dentro do silêncio.</p>
<p> Continuarás quando os teus braços estiverem fatigados. Olharás para as tuas cicatrizes sem tristeza. Tu saberás que um homem pode seguir em frente apesar de tudo o que dói, e que só assim é homem.</p>
<p> Para gritar, mesmo calado, os verdadeiros nomes de tudo. Para tratar como lixo as bugigangas que outros acariciam. Para mostrar que se pode viver de luar quando se vai por um caminho que é principalmente de cor e espuma. </p>
<p> Levantarás do chão cada pedra das ruínas em que transformaram tudo isto. Uma força que não é tua nos teus braços. Beijá-las-ás e voltarás a pô-las nos seus lugares.</p>
<p> Para ir mais além. Para passar cantando perto daqueles que viveram poucos anos e já envelheceram. Para puxar por um braço, com carinho, esses que passam a tarde sentados em frente de uma cerveja.</p>
<p> Dirás até ao último momento: &#8220;ainda não é suficiente&#8221;. Disposto a ir às portas do abismo salvar uma flor que resvalava. Disposto a dar tudo pelo que parece ser nada. Disposto a ter contigo dores que são semente de alegrias talvez longe.</p>
<p> Para tocar o intocável. Para haver em ti um sorriso que a morte não te possa arrancar. Para encontrar a luz de cuja existência sempre suspeitaste.</p>
<p> Para alcançar a estrela inalcançável.</p>
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		<title>O tempo que nos resta</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Sep 2009 19:17:32 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[arrependimento]]></category>
		<category><![CDATA[conversão]]></category>
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		<description><![CDATA[De súbito sabemos que é já tarde. 
 Quando a luz se faz outra, quando os ramos da árvore que somos soltam folhas e o sangue que tínhamos não arde como ardia, sabemos que viemos e que vamos. Que não será aqui a nossa festa.
 De súbito chegamos a saber  que andávamos sozinhos. De súbito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>De súbito sabemos que é já tarde. </p>
<p> Quando a luz se faz outra, quando os ramos da árvore que somos soltam folhas e o sangue que tínhamos não arde como ardia, sabemos que viemos e que vamos. Que não será aqui a nossa festa.</p>
<p> De súbito chegamos a saber  que andávamos sozinhos. De súbito vemos sem sombra alguma que não existe aquilo em que nos apoiávamos. A solidão deixou de ser um nome apenas. Tocamo-la, empurra-nos e agride-nos. Dói. Dói tanto! E parece-nos que há um mundo inteiro a gritar de dor, e que à nossa volta quase todos sofrem e são sós.</p>
<p> Temos de ter, necessariamente, uma alma. Se não, onde se alojaria este frio que não está no corpo?</p>
<p> Rimos e sabemos que não é verdade. Falamos e sabemos que não somos nós quem fala. Já não acreditamos naquilo que todos dizem. Os jornais caem-nos das mãos. Sabemos que aquilo que todos fazem conduz ao vazio que todos têm.</p>
<p> Poderíamos continuar adormecidos, distraídos, entretidos. Como os outros. Mas naquele momento vemos com clareza que tudo terá de ser diferente. Que teremos de fazer qualquer coisa semelhante a levantarmo-nos de um charco. Qualquer coisa como empreender uma viagem até ao castelo distante onde temos uma herança de nobreza a receber.</p>
<p> O tempo que nos resta é de aventura. E temos de andar depressa. Não sabemos se esse tempo que ainda temos é bastante.</p>
<p> E de súbito descobrimos que temos de escolher aquilo que antes havíamos desprezado. Há uma imensa fome de verdade a gritar sem ruído, uma vontade grande de não mais ter medo, o reconhecimento de que é preciso baixar a fronte e pedir ajuda. E perguntar o caminho.</p>
<p> Ficamos a saber que pouco se aproveita de tudo o que fizemos, de tudo o que nos deram, de tudo o que conseguimos. E há um poema, que devíamos ter dito e não dissemos, a morder a recordação dos nossos gestos. As mãos, vazias, tristemente caídas ao longo do corpo. Mãos talvez sujas. Sujas talvez de dores alheias.</p>
<p> E o fundo de nós vomita para diante do nosso olhar aquelas coisas que fizemos e tínhamos tentado esquecer. São, algumas delas, figuras monstruosas, muito negras, que se agitam numa dança animalesca. Não as queremos, mas estão cá dentro. São obra nossa.</p>
<p> Detestarmo-nos a nós mesmos é bastante mais fácil do que parece, mas sabemos que também isso é um ponto da viagem e que não nos podemos deter aí.</p>
<p> Agora o tempo que nos resta deve ser povoado de espingardas. Lutar contra nós mesmos era o que devíamos ter aprendido desde o início. Todo o tempo deve ser agora de coragem. De combate. Os nossos direitos, o conforto e a segurança? Deixem-nos rir&#8230; Já não caímos nisso! Doravante o tempo é de buscar deveres dos bons. De complicar a vida. De dar até que comece a doer-nos. </p>
<p> E, depois, continuar até que doa mais. Até que doa tudo. Não queremos perder nem mais uma gota de alegria, nem mais um fio de sol na alma, nem mais um instante do tempo que nos resta.</p>
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		<title>Tanto de amor se disse</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Sep 2009 19:16:52 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Não tinham conseguido filhos. Por isso resolveram ir a uma dessas instituições que recolhem crianças abandonadas manifestar o seu desejo de adoptarem uma criança.
 Os responsáveis da instituição, enquanto tratavam da papelada, foram avisando que se tratava de um processo moroso e nada simples. Mas, quando foi feita a pergunta sobre que preferências tinha o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não tinham conseguido filhos. Por isso resolveram ir a uma dessas instituições que recolhem crianças abandonadas manifestar o seu desejo de adoptarem uma criança.</p>
<p> Os responsáveis da instituição, enquanto tratavam da papelada, foram avisando que se tratava de um processo moroso e nada simples. Mas, quando foi feita a pergunta sobre que preferências tinha o casal quanto à criança a adoptar, o processo descomplicou-se bastante. É claro que não se poderiam evitar umas quantas maçadas em forma de papel&#8230; mas a preferência que o casal manifestara era tão estranha, tão insólita&#8230; Talvez não fosse assim tão difícil.</p>
<p> Tinham dito: &#8220;Queremos ficar com uma criança que ninguém deseje; aquela que tenha menos hipóteses de ser adoptada. Não nos importa que seja deficiente. E, se puderem ser duas, melhor&#8221;&#8230;</p>
<p> Tão estranho, tão inusitado.</p>
<p> E, no entanto, tão natural, tão bonito. Tão verdadeiramente de acordo com a nossa natureza.</p>
<p> Já nos parece estranho ver uma manifestação de amor. Já nos parece estranho que alguém olhe para uma criança como um enorme poço vazio que é preciso encher gota a gota, balde a balde. Com sacrifício e dor. Sem compensações, sem exigir nada em troca &#8211; o amor não tem outra compensação que não o próprio amor.</p>
<p> Li há muito tempo, num qualquer livro de poesia, dois versos que de vez em quando me vêm à cabeça, a propósito de muitas coisas a que vou assistindo. Não sei exactamente quem os escreveu, nem com que intenção foi escrito o poema de que faziam parte, o qual, de resto, esqueci totalmente. Mas os versos falam, mesmo sem a sua moldura original:</p>
<p> &#8220;Tanto de amor se disse / que não sei como dizer que amor é outra coisa&#8221;.</p>
<p> Tanto do amor se tem dito, que é quase um acto pornográfico falar, ou escrever, sobre amor.</p>
<p> Os homens descobriram há muitos séculos que o amor é o mais importante de tudo; que é ele que move o mundo; que é ele que guia os passos dos humanos; que nada mais interessa. Mas temos assistido a uma mudança subterrânea: continuaram a dar a mesma importância ao amor, mas mudaram subtilmente o conteúdo da palavra. Chamaram amor a outras coisas, à superfície do amor, à escória do amor.</p>
<p> Construíram uma mentira gigantesca.</p>
<p> Têm chamado amor a coisas nas quais não conseguimos descobrir senão egoísmo, equilíbrio de egoísmos, negócio. </p>
<p> Quem diz que amou só porque sentiu prazer não entende nada de amor. Porque quer colher, enquanto o amor é uma força que leva a semear. </p>
<p> Quem dá porque quer receber, ou quem se dá só enquanto dar não dói, é um comerciante. Calcula. O que equivale a dizer que nunca amou. E que a pessoa amada é uma mercadoria &#8211; sujeita, como as mercadorias, a critérios de qualidade e a prazos de validade.</p>
<p> Se nada interessa senão o amor, e se o amor é isto, temos aqui uma explicação para tantas coisas tristes que temos observado em nós e à nossa volta&#8230;</p>
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		<title>Spartacus</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Sep 2009 19:15:41 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Não há muitos dias, tive oportunidade de rever um filme dos antigos: Spartacus, dirigido por Stanley Kubrick.
 Ocasião para confirmar que antigamente &#8211; tal como hoje &#8211; a corrupção se cola preferencialmente aos ricos, e que os pequenos são capazes de coisas maravilhosas ainda que lutando contra tudo e contra todos.
 É apenas um filme, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Não há muitos dias, tive oportunidade de rever um filme dos antigos: Spartacus, dirigido por Stanley Kubrick.</p>
<p> Ocasião para confirmar que antigamente &#8211; tal como hoje &#8211; a corrupção se cola preferencialmente aos ricos, e que os pequenos são capazes de coisas maravilhosas ainda que lutando contra tudo e contra todos.</p>
<p> É apenas um filme, sem dúvida. Mas aquela revolta dos escravos &#8211; que existiu historicamente e colocou efectivamente em causa  o poderio romano &#8211; não teria sido o que foi se as coisas não se tivessem passado desse modo, mais coisa menos coisa, pelo menos nos aspectos essenciais.</p>
<p> Ocasião, também, para lembrar certas cenas que já não recordava exactamente e tinha fome de rever.</p>
<p> Uma delas sucede depois de os escravos terem perdido a batalha final. Os sobreviventes estão sentados em grupo no chão, rasgados e feridos. O comandante da Legião romana anuncia-lhes que escaparão à morte se o informarem de qual deles é Spartacus, no caso de ainda estar vivo. E Spartacus está realmente vivo, sentado entre os amigos.</p>
<p> O momento é de grande tensão. O realizador foca os olhos do chefe dos revoltosos e os olhos de vários dos companheiros. Está muita coisa em jogo: a vida de todos eles.</p>
<p> Eram amigos. Aqueles meses de contrariedades, lutas e perigos vividos em comum tinha-os unido de tal forma que era como se formassem uma só coisa. Agora os romanos queriam apenas o chefe&#8230;</p>
<p> Acontece por vezes que as grandes decisões se têm de tomar em muito pouco tempo. Spartacus ergue-se para revelar a sua identidade. A sua morte libertará os amigos. Mas quando vai dizer as palavras fatais, há um companheiro que se levanta mesmo ali ao lado e diz: &#8220;Eu sou Spartacus&#8221;. </p>
<p> É mentira, mas ele di-lo. Talvez porque de alguma forma seja verdade&#8230;</p>
<p> E logo outro homem se levanta, dizendo as mesmas palavras. E outro. E outro&#8230; Depressa estão todos de pé diante do oficial. Todos eles são Spartacus&#8230; e acabarão por morrer crucificados, um após outro, numa fila de cruzes que encheu quilómetros de estrada até entrar em Roma.</p>
<p> Existe algo de grandioso na atitude de Spartacus, que se entrega para salvar a vida dos amigos. Mas não é menos bela a reacção dos companheiros. E há qualquer coisa em tudo isto que nos atrai irresistivelmente, porque o bem é atraente.</p>
<p> A lealdade consiste em não abandonarmos os nossos deveres e compromissos; em não abandonarmos os nossos amigos e as pessoas que confiaram em nós. É uma manifestação da grandeza da liberdade humana: leva-nos até ao fim do caminho que escolhemos, apesar de todas as dificuldades e obstáculos. </p>
<p> Na cor aparentemente cinza de estarmos todos os dias fielmente no nosso lugar, existe, escondido, o ouro daquilo que é sólido, firme e verdadeiro. Um homem leal é como uma rocha. Transmite segurança e espalha luz à sua volta.</p>
<p> Ao longo da História dos homens, como na cena do filme, a lealdade conduziu muitas pessoas a grandes sofrimentos e, até, a uma morte cruel. Mas, nos nossos dias, é uma virtude esquecida. Qualquer par de moedas, qualquer novidade aparentemente vantajosa nos faz esquecer os deveres e nos leva a quebrar os nossos laços, enchendo a nossa vida de traições a que nos vamos habituando.</p>
<p> Talvez devêssemos ver mais vezes filmes antigos&#8230;</p>
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		<title>Somos capazes</title>
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		<pubDate>Wed, 30 Sep 2009 19:15:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>admin</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Hoje em dia a lei não permite que duas pessoas se casem sem hipótese de desfazerem o casamento. Não é possível, perante a lei, casar para sempre.
 É capaz de ser complexo explicar como se chegou a este estado. Mas é bem mais fácil comprovar os efeitos que o divórcio tem tido na nossa sociedade. [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Hoje em dia a lei não permite que duas pessoas se casem sem hipótese de desfazerem o casamento. Não é possível, perante a lei, casar para sempre.</p>
<p> É capaz de ser complexo explicar como se chegou a este estado. Mas é bem mais fácil comprovar os efeitos que o divórcio tem tido na nossa sociedade. Nas nossas crianças, nos que cresceram desequilibrados, nas confusões mentais, na perda da segurança. Não é sem enorme prejuízo que se anula a família, a qual, por sua natureza, se fundamenta num laço inquebrável &#8211; a única coisa que permite a estabilidade indispensável à constituição de um lar e ao crescimento de novos seres. Um professor espera, mais cedo ou mais tarde, problemas num aluno cujos pais se divorciaram.</p>
<p> Vamos supor que a lei nos autorizava a fazer duas coisas quando estivéssemos para casar. Uma delas seria o contrato que agora existe e pode ser anulado com maior ou menos facilidade. A outra, um pacto inquebrável, que impedisse os que se casam de virem a casar mais tarde com outra pessoa qualquer, a não ser por morte do seu cônjuge.</p>
<p> Vamos, ainda, supor que dois jovens se amavam. Ele pedia-a em casamento e ela, naturalmente, perguntava qual das duas espécies de casamento lhe propunha ele. </p>
<p> Poderia ser uma situação embaraçosa, não acham?</p>
<p> Que responderia o meu leitor à sua bem-amada, se fosse o jovem da minha suposição? Seria capaz de lhe propor o casamento descartável? Isso não seria uma manifestação de que o seu amor não era bem&#8230; amor?</p>
<p> Que resposta esperaria a minha leitora, se fosse a jovem em questão? Não teria estado a sonhar com um amor para toda a vida?, com um vestido de noiva cheio de sentido? </p>
<p> Sucede que o amor do casamento é de tal forma que não admite meias-tintas: se existe é para sempre. Se aquilo que se entrega não é tudo, esse amor não tem a qualidade necessária para se tornar no fundamento de uma família. Não pode ser alicerce nem raiz. Não será fecundo. Dará frutos apodrecidos, como, infelizmente, temos verificado tantas vezes.</p>
<p> O amor não admite o cálculo. Não faz contas. O amor é louco. </p>
<p> &#8220;É uma loucura amar, a não ser que se ame com loucura&#8221;, dizia o velho adágio latino. Mas hoje cometemos a loucura, e a tolice, de amar sem loucura&#8230; Fazemos as nossas contas e os nossos cálculos. Avançamos as peças do nosso xadrez, mas com o cuidado de prevermos uma escapatória, para o caso de ser preciso bater em retirada.</p>
<p> Medo de que o casamento não corra bem?&#8230; O amor e o medo não podem andar juntos. Quem tem medo não entende nada de amor. Amar é, precisamente, não ter medo. É acreditar que se possui uma força imensa. Quem ama sabe que é também possuído e protegido pelo amor. E que, por isso, caminha noutra altura; voa por cima dos gelos, dos salpicos das ondas, das pedras aguçadas. Vai por cima de um mundo muito pequeno, nas asas um fogo, em mãos de fadas. Possui outra dimensão. Parece-lhe que quem não ama é um morto-vivo&#8230;</p>
<p> Somos capazes de um amor assim. Somos capazes de jogar a vida inteira no consentimento matrimonial. Somos capazes de incluir todo o nosso ser numa palavra que dizemos. E de tornar de aço essa palavra pelo tempo fora, através de todos as dificuldades.</p>
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