Ainda há esperança

Há flores que crescem no esterco. Ou entre duas telhas, com as raízes aconchegadas entre meia dúzia de grãos de terra que o vento arrastou. E talvez sejam mais verdadeiramente belas do que as outras, que alguém colocou num grande jardim e regou abundantemente durante o estio até que se cobrissem de cores e aromas.

Com os homens acontece algo de muito semelhante. Quando parecem existir todas as condições para que um homem se desenvolva harmoniosamente, cheio de virtudes e qualidades, sucede frequentemente que esse homem se torna mole e falso. E que a sua beleza – descobrimos isso mais cedo ou mais tarde – acaba por não passar de aparência.

Bela e forte é a flor que cresceu nos telhados.

O ouro é provado no fogo; o valor de um homem avalia-se nas contrariedades, nos obstáculos, nas dificuldades de todo o género.

Jamais se encontrará outra maneira de medir quanto vale um homem.

O fraco foge daquilo que é difícil e árduo; alimenta-se daquilo que recebe dos outros; ama o que é fácil e cómodo. O homem nobre vive do que dá; enfrenta as dificuldades; não tem receio de ir contra corrente.

Durante o horroroso ataque terrorista nos Estados Unidos aconteceu que alguns homens foram contra corrente. Os relatos dos sobreviventes referem o facto espantoso de que – enquanto a multidão descia, tão depressa quanto possível, as escadas que conduziam à salvação – os bombeiros subiam as mesmas escadas, procurando mais pessoas para salvar.

A corrente descia e eles subiam. Tinham a perfeita consciência de que o edifício podia ruir a qualquer momento, como de facto veio a acontecer. Mas subiam, subiam…

Os que iam a descer nunca mais poderão esquecer os rostos daqueles homens que iam a subir e nunca mais regressaram lá das alturas. Hão-de lembrá-los, talvez, como anjos salvadores; mas, sobretudo, como homens fortes, cheios de nobreza. “Não podemos ir embora – explicavam. – Este é o nosso dever”.

O ataque às torres gémeas suscitou inúmeros actos de heroísmo, muitos dos quais ficarão escondidos para sempre. Porque esse ataque foi para os homens o mesmo que o fogo é para o ouro: fê-los mostrar o que valem.

Não gosto de tragédias, mas gosto de ver como o homem se ergue nas tragédias. Gosto de verificar que continuamos a ser capazes de heroísmo. E que – apesar de muitas vezes as nossas revistas e a nossa televisão prestarem culto à mediocridade – continuamos a ser capazes de apreciar o heroísmo.

Assim, ainda há esperança!

Ainda há esperança
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