Conversas de surdos

Não nos entendemos uns aos outros.

Grande parte dos problemas que existem no seio das famílias, no grupo dos conhecidos, no local de trabalho, resulta de dificuldades de comunicação.

Temos pressa quando estamos com as outras pessoas. Parece-nos que utilizar tempo em simplesmente estar com os outros é desperdiçá-lo. E, assim, não aprendemos a conhecê-las verdadeiramente. E sem as conhecer não sabemos o que dizer-lhes, nem como dizer-lhes. Temos muitas conversas que parecem de surdos, tal é falta de sintonia entre quem fala e quem escuta.

Somos pessoas muito ocupadas. Trazemos sempre entre mãos assuntos importantíssimos que nos fazem correr, que nos absorvem, que não deixam em nós espaço suficiente para que caibam as outras pessoas.

Não chegamos propriamente a escutar aquilo que os outros têm para nos dizer: quando estão ainda a pronunciar a terceira palavra, julgamos que já sabemos o que queriam dizer e desligamos a nossa atenção.

Encontramos um velho conhecido na rua e dizemos: “Gostei imenso de te ver; temos de combinar um encontro para conversarmos com calma”. Mas não sugerimos uma hora e um local para esse encontro porque, na realidade, não temos verdadeiro interesse em o concretizar.

E se alguém consegue contar-nos, entre duas corridas, um problema de saúde, por exemplo, despedimo-nos com umas palmadinhas nas costas, uma justificação para o facto de termos de ir embora e um “Vais ver como isso melhora!”. Mas não mexemos um único dedo para ajudar essa pessoa, nem talvez tenhamos chegado a compreender em que consistia exactamente o problema. Não temos espaço em nós.

Sabemos utilizar com perfeição a velha técnica comercial de conciliar uma aparência exterior de interesse pelos outros com um real desinteresse interior.

Somos superficiais e bem falantes.

E não chegamos, em muitos casos, a conviver verdadeiramente (viver com).

Nunca como neste nosso tempo existiram tantas formas, e tão evoluídas, de comunicar com os outros. E nunca houve tanta solidão. Uma pessoa de quem gosto muito e fez recentemente 70 anos dizia-me há dias, quando tentava aprender a usar um telemóvel: “As coisas que agora inventam!”…

O nosso tempo é de telemóveis e de solidão. E os telemóveis vieram, em muitos casos, acentuar a solidão porque os utilizamos para tratar assuntos com as outras pessoas sem termos de estar com elas. Com esta maravilha do progresso, os homens já não têm de se encontrar tantas vezes. Passam mais facilmente uns sem os outros. Já não perdem tanto tempo… Podem dedicar-se mais aos seus assuntos, proceder como homens de negócios que não perdem tempo com miudezas.

E é pena que as outras pessoas – mesmo aquelas que amamos – não façam parte desses “assuntos” que merecem a nossa dedicação. É pena que a educação dos filhos não seja o principal negócio dos pais. É pena que a felicidade de um amigo não mereça que se gaste tempo com ela.

Porque estamos feitos mais para estarmos com os outros homens do que com as coisas e as ideias.

Cada ser humano é um universo de muitas galáxias, com surpreendentes maravilhas escondidas que merece a pena conhecer.

Vamos dedicar tempo a isso?

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