A roda da História

A História não costuma repetir-se exactamente, mas muitas vezes sucedem coisas que, por qualquer razão, nos fazem lembrar outras anteriormente acontecidas.

Este nosso tempo tem todos os sinais de um final de civilização. A chamada civilização ocidental parece agonizar, afundando-se nas ruínas de si mesma.

O que acabei de escrever pode fazer alguém torcer o nariz…, mas quando, em 4 de Setembro de 476, Odoacro, rei dos Hérulos, depôs o imperador Rómulo Augústulo, poucos devem ter sido também os cidadãos que se resignaram a admitir que o Império Romano do Ocidente tinha morrido. Aqueles homens, tal como os ocidentais de hoje, não queriam reconhecer a sua própria decadência. E muito menos analisar as causas dessa decadência.

E esta semelhança de atitudes é precisamente um dos factores que confirmam a semelhança entre os dois momentos históricos.

As causas do desaparecimento do Império Romano foram muitas e muito variadas, mas, principalmente, a perda de uns valores e de umas virtudes que tinham constituído a própria substância do Império. Essa perda tinha levado ao enfraquecimento da autoridade, à corrupção dos costumes, à destruição da unidade familiar – que antes tinha sido tão sólida -, à proliferação da infidelidade conjugal, do divórcio, do infanticídio e do aborto.

Como consequência de tudo isto, tinha havido uma vertiginosa descida da natalidade em todo o Império: uma espécie de suicídio colectivo de uma raça.

Os filhos das melhores famílias romanas recusavam as tarefas custosas, e nem sequer se alistavam nas Legiões. Limitavam-se a saborear a vida de uma forma mole, ociosa, feita de prazeres fáceis. As fronteiras do Império eram defendidas pelo “terceiro mundo” da época: godos, hérulos, vândalos, alanos… que também cultivavam as terras ou serviam como escravos.

Não é de estranhar que estes povos que viviam submetidos dentro do Império – de um império cuja envelhecida população era cada vez mais escassa -, procurassem inverter a situação apoderando-se do poder. A maioria deles não sabia ler nem escrever, mas veneravam a família e tinham filhos; nada sabiam de Homero ou de Virgílio, mas não havia homossexualidade ou prostituição entre eles.

Tal como nessa época, também agora se verificam muitos destes sintomas, como não será difícil verificar olhando em redor. Na Europa ocidental, as tarefas mais duras já são quase só realizadas por estrangeiros. Basta visitar umas obras de construção civil e analisar as nacionalidades dos que ali trabalham.

Os ocidentais já não têm filhos, mas os outros sim. Os ocidentais já não sabem a linguagem do esforço, mas os outros sim.

Se tiver de ser, teremos pena… Mas não se trata de nenhuma desgraça, no fim de contas. A roda da História gira sem parar. O final de uma coisa é o início de outra. Em vez de considerarmos que nos coube a infelicidade de assistirmos à agonia de uma civilização, poderemos pensar que temos a sorte de estarmos presentes, e talvez de participarmos, no nascimento de uma nova… que será, se Deus quiser, mais forte e mais sã do que esta.

A roda da História
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