Paulo Geraldo – textos em prosa

Também a lagarta

Também a lagarta, um dia, compreendeu que tinha de se encerrar. Parecia inevitável: havia uma força que estava em todo o lado e crescia também, fibra a fibra, por dentro dela. Todas as outras lagartas estavam a fazer a mesma coisa. Ela mesma construiu o seu casulo, sem vontade, lentamente. Era o fim. Ia perder […]

O primeiro amor

O primeiro amor de uma rapariga é o seu pai.
É ele o primeiro homem que se encanta com ela. É ele quem primeiro a trata como a uma princesa, quem lhe faz todas as vontades e lhe adivinha todos os desejos.
O pai é o primeiro homem que ela observa, quando ainda nem sabe que está a observar. O primeiro a quem dá a mão e a quem fala de segredos e de sonhos. O primeiro a quem deseja agradar.
Espera que ele chegue a casa, corre para ele, quer sair com ele.
Tem no coração o terrível receio de que alguma coisa má aconteça ao pai.
E quando o pai conversa com a mãe, ou quando discutem ou trocam carinhos, ela observa. Vê como eles resolvem as coisas juntos, como enfrentam as dificuldades que vida lhes oferece, como têm paciência entre eles.

O jogo das pedrinhas

O senhor partiu do princípio de que a filha podia estar a mentir. Não estava… mas abriu as mãos.

Enquanto tomava o meu café assisti ao instante exacto em que aquela menina aprendeu que não era merecedora de confiança, que não acreditavam nela, que a sua palavra não tinha valor. Que esperavam dela que fosse capaz de enganar os outros para alcançar os seus objectivos.

Aos três anos. Num jogo. Com o pai.

O lago

Quando te parecer que tudo está perdido, ri-te, se puderes. É que te estão a oferecer um degrau que te deixará incomparavelmente mais acima no caminho. Deves ver nisso o sinal de que – por qualquer razão – é tempo de andares depressa.
Sobretudo, não te queixes. Há assim metamorfoses que parecem aniquilar, mas não passam de formas de fazer surgir a borboleta.
Não te queixes, porque receberás umas asas e cores novas.

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