Paulo Geraldo – textos em prosa

Embrulho sem presente

O Natal é só de quem há muito espera. De quem ainda não se encheu. É só de quem sonhou além das coisas e se vê ainda muito longe. É de quem tem chorado. De quem olha para dentro de si mesmo e sente medo. De quem não encontrou ainda o seu consolo. O Natal existe apenas onde existe a falta.

Sentado na pedra

E foi então que sucederam muitas coisas que não esperava. Não tinha conseguido deixar de fechar os olhos, e, enquanto te abraçava, senti que estreitava um corpo que se tinha tornado bem maior. Que suava, que sangrava, que tinha sido golpeado.

Irmãos pequenos do vento

Mil vezes podíamos ter morrido, mil vezes podíamos ter sido assaltados, mil vezes podíamos ter adoecido gravemente. Mas sempre que superávamos uma dificuldade tornávamo-nos mais fortes, mais capazes de enfrentar o que viesse. Servíamo-nos dos nossos adversários para crescer. A dor tornava-nos resistentes à dor; a necessidade de nos esforçarmos aumentava a nossa força; uma derrota levava a que nos conhecêssemos melhor.

Sobrevivemos. Éramos os irmãos pequenos do vento. Gostávamos de sentir a chuva a escorrer do cabelo para a face.

O mundo está salvo

Recomeçaram as aulas. Há exactamente um ano eu era um ano mais novo. Depois disso passaram 365 dias em que me encantei e me desencantei; em que me cansei; em que aprendi o que gostaria de não ter aprendido; em que descobri mais coisas que já não sou capaz de fazer. Envelheci. Mas os meus alunos, cujos rostos ainda não sei associar aos nomes, têm os mesmos 13 anos de há um ano atrás. É, de certa forma, estranho… O tempo passou por mim, mas não por aqueles que se encontram agora sentados à minha frente.

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